A utilidade da arte

“Pro amigo querido Paulo Panzeri e sua tese de doutoramento

Eu me formei numa época em que a busca na Arte era de uma linguagem, uma poética. Eu entendi que isso significava uma espécie de método estilístico, um “jeitão” de resolver esteticamente um problema.

Mas antes, eu era um técnico, habilitado a trabalhar na indústria na área de projetos. Então a gente era treinado para pensar em termos de problemas e soluções. A gente inventava soluções para automatizar tarefas repetitivas. Máquinas, circuitos, softwares.

Antes ainda eu era desenhista de histórias em quadrinhos, charges e caricaturas. E antes, um inventor dos meus brinquedos. E também, desde sempre, um “puta dum zueiro do caralho”, como podem atestar diversos amigos de infância, parentes e animais. E um leitor ávido, um filósofo e durante algum tempo, um freguês assíduo dos botecos.

Então a arte ficou para mim num lugar entre a “zueira”, a invenção, a programação, a filosofia de botequim, a religião, a gambiarra, as más influências, os amigos verdadeiros e a falta de dinheiro.

De maneira que eu sempre fiquei me perguntando se aquilo tudo era útil para mais alguém…

Se eu não estava, na idade adulta, dando um jeito de continuar brincando enquanto alguém pagava as contas. Esse alerta da esposa, dos boletos, da casa, dos filhos que foram se somando, das mensalidades escolares… Então as aulas de teatro, uma mistura do que eu aprendi na catequese, com exercícios tirados de algum livro de teatro, com as coisas ditas nas aulas de teatro que eu freqüentava como aluno. Indicação da irmã, primeiro. Depois dos amigos.

E eu sempre inquieto com a escola. Sempre indisposto com ela, desde sempre, desde cedo. Desde o primeiro dia de aula.

Mas fui notando que o ator mais novo que eu, o ator de escola, ele não entendia certas coisas que a gente estudava na faculdade. Ele não tinha as referências que meu professor de teatro dizia serem essenciais. A diretora queria a peça para enfeitar a festa. Os pais queriam que os filhos falassem muito. A professora da sala queria que a coisa saísse bonita.

Foi ali que eu comecei a entender que de algum jeito, aquilo tudo cumpria uma função naquela comunidade. Não era a minha obra, mas a obra daquele grupo humano o que realmente importava. Claro que meu jeito de entender isso foi assim: eu fui sendo demitido inúmeras vezes. Ou então, pedia para sair porque não suportava essa idéia.

Como artista, queria essa coisa para mim, essa obra prima. O gênio, meu deus, o gênio!

Mas qual a utilidade disso?

Essa é a pergunta fundamental. Qual a utilidade desse meu pensar, sentir e atuar para criar essas novas realidades, integrado a essa comunidade que me cerca, mas não cerceia?

A comunidade, no papel de público da “minha obra” deve ser algum tipo de doença mental, dessa lista imensa que hoje temos.

Acho que se fez, nessa época, um arranjo macabro entre a idéia do self-made-man, que sustenta o capitalismo, com a idéia do gênio da renascença. É essa idéia alardeada por toda parte o que gerou essa pretensão toda da minha parte. E me fez querer ser uma mistura de Tony Stark com Leonardo Da Vinci…

E acho que isso é algo que afeta uma geração inteira de artistas.

Ao mesmo tempo, os problemas da vida civil se somam e as corporações nos cercam por toda a parte, comprando o apoio de governantes, na forma de contratos e leis que os favoreçam.

E nós, ocupados que estamos com os boletos que não param de chegar, lamentamos a falta de leis que subsidiem nossa arte. Que merda é essa?

Não.

Algo não vai bem.

Mesmo você, na crista da onda, sabe disso…

Mesmo você, com a casa cheia, viajando mundo a fora, escalado para a próxima produção, com vinte anos de pesquisa na companhia tal, mesmo você… você sabe disso. A casa está caindo irmão!

E o único jeito de fazermos algo me parece ser, justamente, pensar na utilidade do que fazemos para a nossa comunidade. Algo além do “vai me ver que eu estou em cartaz”.

Não é a besteira de formar mais artistas para o mercado.

Talvez seja a besteira de formar mais pessoas fora do mercado. Pensando outra maneira de se relacionar com a comunidade, que não seja o trabalho, ou o mercado, ou os produtos, ou a minha obra.

Um jeito de ajudar as pessoas a terem de volta o próprio sistema nervoso e serem criadores de sua própria realidade.

De algum jeito, isso me parece magia.

Coisa de pajé.

De xamã.

De palhaço sagrado.

Dionísio, novamente, se impondo.

Um comentário sobre “A utilidade da arte”

  1. S o homens e mulheres quem interatuam no processo aberto. A proposta art stica deixa de ser um produto final, enclausurado, para se converter num ponto de partida, aberto ao est mulo m tuo e recria o das sucessivas inst ncias de interven o dos distintos sujeitos que se aproximam a ela

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