Chegança III

Alguém veio e disse:

“Separa o canto deles do nosso”.

Antes era um canto só.
“Cerca. Divide assim: a montanha é deles. O rio é nosso”.

Mas o rio era dele mesmo.
E a montanha, sairia da cerca
sem que ninguém se desse conta.

Depois traçariam linhas, cercando as cercas que não podiam cercar.
E disseram que uma linha era a frente.
A outra atrás.
E outras mais de cada lado.

Quadraram seu mundo e lá ficaram.
Além da borda, o infinito.
Ou o fim do mundo.

Mágica

Parece que vêm até aqui e nos olham
como se estivéssemos fazendo alguma
mágica e então eles se perguntam de
que cartola nós tiramos tanta felicidade.

Chegança II

Eu já gosto de ficar olhando para as gentes
e ficar achando as parecenças.
Aquele é tio Vitor.
Aquele outro é Chico Moço.
Lá longe, Dona Dadora mais seu Alfredo.
Acolá Lucas, Pedro, João, Mateus…
E seu Tomé na frente deles.

Chegança I

Quando eu chego num lugar novo,
tiro as sandálias e bato uma na outra…
Pra sair a poeira, sabe?
Poeira do que já foi.

Daí eu pego as sandálias
e raspo na terra do chão.
E banho elas na água
e raspo de novo.

Que é pra ficar impregnado do agora.

Funcionar ou Viver

Tinha ido conversar com ele porque achava que estava com algum problema que fazia com que não funcionasse direito. Achava que a vida estava se esvaindo sem que tivesse feito nada de significativo.

- Pare de funcionar e viva.

- Se eu parar de funcionar, morro.

- Eu já não funciono.

- E como vive?

- Vivo pelos meus meios.

- Eu também vivo. Mas ganho pouco com isso.

- Então não vive. Você apenas funciona.
É preciso deixar de funcionar para viver.

O outro apenas riu. Mediu o sujeito de cima a baixo e pensava que estava diante de alguma criatura rara. Uma esfíngie, talvez.

- Você pode escolher entre funcionar ou viver.
Não se pode ter os dois ao mesmo tempo.
Se escolher a vida, estarei aqui para ajudá-lo.
Mas, se você escolhe funcionar… não posso consertar isso.
Porque perdi a crença na máquina.

Reformas

Um reformador, ele era.

Achava que o mundo era uma máquina quebrada cujo funcionamento ele a muito havia desvendado. Todos os esquemas, toda a mecânica, todas as possibilidades, tudo…

O que ele sabia, sabia.

O que não sabia, sabia que saberia.

E assim seguia.

Se lhe perguntavam o que estava fazendo, ele interrompia sua longa cadeia de raciocínios e observava o inquiridor.

Sabia que sabia o que o outro queria saber e engrenava uma longa série de elocubrações e sentenças explicando toda a mecânica do cosmos, da forma mais simples que poderia conceber, rica em metáforas e alegorias, repleta de jogos de lógica e de um certo tempero irônico ao que o outro redarguia com um QUÊ? que ele logo respondia com outra série de raciocínios até que soubesse que, de fato o outro sabia.

E seguia reformando, ainda que abandonasse o outro com um QUÊ? ainda maior e mais confuso.

Não suportava a ajuda de outros, é claro. Porque a cada parada explicatória a máquina do mundo se complicava, e sua função lhe obrigava a agir.

De modo que seguia reparando tudo atinar que estava cansado.

Então mudava de lado e ia consertar algo noutra parte, sem perceber que ficava só. E que a tarefa a que se propunha era colossal.

Que o cansaço o fosse massacrando, tudo bem.

Mas lhe sobrevinha uma irritação constante com a incompreensão. na sua cabeça, os outros eram peças da máquina cuja direção ele revertia ao explicar o mundo e seu funcionamento correto.

Ou ainda, o outro era a ferramenta que ele usava para consertar tudo.

Bem… Seguiria assim.

Mas um dia compreendeu sua própria mecânica e então se irritou, porque se achava mais humano que os demais, que eram para ele autômatos.

Se soube máquina. E isso era um defeito.

Engrenou então um reformismo de si. E se fechou para balanço. Era preciso se humanizar.

Mergulhou no labirinto de sues raciocínios e começou a ter vários QUÊS a seu respeito.

E ia e se julgava e se reformava e não conseguia e se asfixiava e perdia e seguia e ia, ia, ia…

Não foi pela SUA longa série de raciocínios que ele chegou ao entendimento de que só reformaria a máquina do mundo se reformasse a si mesmo e ensinasse a outros a mesma coisa. Se ensinasse a reparar o que havia ensinado, ensinando uma direção nova, que era ensinar o outro a ensinar que o mundo poderia ser menos mecânico e mais humano.

E avançando nisso, se humanizou, humanizando a outros.

E o mundo não precisou mais de conserto.

Porque não era uma máquina.

Um BO que encontrei

Anotações sobre o dispositivo proposto pelo indivíduo nº. 0550445, chamado “Messias”.

Capacidade de armazenamento de 840 terabytes, conjunto de 2178 winchesteres. Unidade de processamento, desconhecida. Possivelmente um amálgama de diversos processadores, funcionando paralelamente.
Cinco assentos de barbearia, dispostos em estrutura de pentagrama, com símbolos cabalísticos inscritos. Sobre cada um dos assentos, capacetes de ciclista, com eletrodos em vários pontos.
No centro desta estrutura, um transformador do tipo residencial, para bairros com mais de 5 mil habitantes. Abaixo da estrutura, manchas de gordura e sangue. Alguma poeira, possivelmente cinza humana.
Diversos monitores exibem imagens que não parecem provir de nenhuma emissora de TV conhecida. Os fiéis dizem que são imagens do paraíso. Verificar a procedência de emissões clandestinas na região.
Não há indício de interface alguma. Sem botões, teclados ou mouses. O funcionamento do dispositivo parece estar associado às placas implantadas no corpo do “messias”.
Não foi apurado se o dispositivo realmente funciona.

Um fato urbano e concreto

Existe uma seita secreta, entre os catadores de sucata, cujo messias preconiza uma salvação que virá dos circuitos eletrônicos.

Tais catadores resgatam dos lixos as sucatas de eletrodomésticos e as levam para algum lugar secreto, nos subterrâneos da cidade, onde habita o messias.

Este homem, de uma capacidade sobre-humana, reúne os circuitos aproveitáveis em tais aparelhos na esperança de construir um dispositivo que transportará as almas de seus fiéis ao paraíso.

A máquina, segundo dizem, tem mais de oitenta metros quadrados de área e está prestes a ser concluída. Alguns dos fiéis catadores de papelão foram sacrificados nos incontáveis testes do dispositivo de transporte.

Conta-se ainda que o corpo do messias é repleto de placas de circuito impresso, de finalidade desconhecida, que parecem se alimentar do próprio corpo messiânico. As más línguas dizem que o messias não estaria vivo se não fossem tais placas. Mas os fiéis acreditam que ele é que alimenta os dispositivos, que com certeza, devem ser os controles da máquina.

Alguns dos catadores de papelão também usam dispositivos anexados às suas roupas e corpos, mas falta-lhes o conhecimento para fazer com que funcionem empregando a energia contida em seus corpos. Neste caso, os dispositivos são apenas fetiches, amuletos. Ou ainda, indicadores da filiação destes catadores.

Não se trata de uma organização política, propriamente. Não há indícios de que a mensagem do messias seja de cunho revolucionário. Vivem em seus subterrâneos, executando suas tarefas rotineiras. Eles são os invisíveis, que se aproveitam das tralhas da sociedade. Ninguém parece se importar muito com eles. São apenas tralhas entre tralhas.

Também não se viu tais homens pregando a sua fé, à maneira dos fiéis de outras seitas. Parecem não se importar com a salvação alheia. Movem-se silenciosamente na superfície da cidade, revirando lixos à procura das peças que faltam ao estranho quebra-cabeça criado por seu líder. Não possuem nenhum ritual de adesão, a não ser a desgraça em que vivem.

Parecem inofensivos, exceto num aspecto: “Como se deu que uma tal organização florescesse em nossa cidade sem que nós sequer percebêssemos?”

Teorias da Relatividade

São tão diversas as idéias do ser humano sobre o mundo que o cerca, que em qualquer contexto, podemos ficar horas e horas divagando sobre estas diferentes percepções. Há a percepção do que seja deus. Há a percepção do que seja a verdade universal. Há a percepção do bem e do mal. Há a percepção da justiça. Há a percepção do que é um bom futebol ou de qual é a melhor religião. Ou a de que determinada política é melhor que outra.

Não é que o mundo tenha se tornado complexo demais ou então o homem. O que ocorre é que as justificativas para o nosso sofrimento se tornaram cada vez mais elaboradas. A ilusão está se tornando cada vez mais refinada em seus argumentos.

E este relativismo permite que um homem faça outro sofrer, embora ele mesmo não deseje o sofrimento. O relativismo cria as justificativas para que um homem seja vendável e o outro não; para que uma vida humana tenha o seu preço; para que homens se tornem coisas que fazem coisas.

Podemos nos sustentar neste relativismo quando desejamos a solidão. Se o outro pensa o mundo da sua forma e eu da minha, que cada um fique no seu canto e não perturbe o outro. Só tornaremos a nos encontrar quando tivermos utilidade um para o outro.

O combate entre homens também se apóia nisso. Você é o mal para mim e eu o sou para você, portanto combatemos. Você quer as minhas terras e os meus recursos. E eu quero explorá-los para depois explorar você através da venda destes recursos, por valores relativos, que eu determinarei segundo idéias também relativas. Você pretende me convencer de que a sua relatividade é melhor que a minha e por isso usa armas que vão me convencer, ou exterminar.

Está claro que os relativismos não vão nos conduzir a nenhum ponto, como espécie. Eles estimulam o individualismo crescente no mundo que nos cerca. Alimentam a subjetividade individual com promessas de que teremos todos os nossos desejos satisfeitos se nos esforçarmos o suficiente. Nos dizem que existem produtos perfeitos que atendem as nossas carências e quanto mais nos esforçarmos, seja trabalhando árduamente, explorando o trabalho de outros ou roubando com fervor, teremos mais recursos para finalmente podermos usufruir da felicidade individual. Oferecem-nos o direito de sermos énicos, mediante a exclusão psíquica de todos os outros; mediante a negação de toda intencionalidade que outros possam ter.

Que centro de ação podemos achar num mundo que se configura desta forma?

Se o relativismo se configura como um emaranhado de opiniões desconexas do ser humano sobre o mundo que o cerca, aonde está o centro disso? No ser humano, é claro.

Naquele cujo maior projeto, em todas as formas que se configure, é evitar o sofrimento e atingir a felicidade. Sabendo é claro que isso não é um projeto individual e sim o projeto de toda uma espécie buscando a evolução, um outro patamar.

Se não deseja o sofrimento, não faþa outros sofrerem por isso, porque o refluxo desta contradição lhe trará mais sofrimento. Trata os outros como você gosta de ser tratado. Em ambos os casos, o centro é ser humano, em busca da superaþão do sofrimento. Não há outra idéia aí.

E que os relativismos sejam bem vindos, como manifestação da diversidade. O que nos faz énicos, não precisa nos fazer sós. Se temos algo em comum, que compreendemos ser a aspiração de superar todas as dificuldades que nos colocam nesta teia de sofrimento, a sua perspectiva distinta da minha pode me enriquecer e me fazer crescer.

E assim, caminharemos para uma nação humana universal.

3RG0NôM1C4 – Um projeto da Evergreen

Personagens:

Mãe
Host
Pai
Irmão
Filho
Amante
Técnico

Dedico esse trabalho aos companheiros do V-Uha (Vermelho Útero há), à Batephubà (Cia Bastarda de Teatro Plástico e Humorismo Batráquio) e à minha esposa Claudia Pucci.

Cena #1

Ambiente: Uma sala de jantar absolutamente branca. Todos os utensílios dão brancos e os personagens vestem roupas brancas. Preparam um jantar, cada um desempenha uma função no preparo. As relações são silenciosas e harmoniosas. Toque de campainha. Detalhes »