Inspirado em Cortázar

A Casa Tomada

inspirado no conto homônimo de Julio Cortázar

por Djair Guilherme

Relação dos Personagens

  1. TIO ALBERTO (Tio-avô de Julio e Irene)
  2. JORGE (marido de AmÁlia)
  3. AMÁLIA (Sobrinha de Alberto)
  4. Julio
  5. Irene
  6. Carmen (Prima de amÁLIA e ROBERTO)
  7. Roberto (Primo de amÁlia e Carmen)
  8. Pai (de julio e irene)
  9. Mãe (de julio e irene e sobrinha de tio Alberto)
  10. Empregada
  11. SEGUNDA EMPREGADA

Jardim

A casa está sendo preparada para uma festa. Julio e Irene brincam no jardim da casa, como crianças. Funcionários entram e saem da casa, nos preparativos. No andar superior, na sacada, os pais se revezam. O pai aparece na sacada, ajeitando a gravata. Depois surge a mãe, penteando-se.   Surge um casal, junto ao público vestido em trajes finos. Jorge e Amália. Julio e Irene discutem e Irene sai correndo. O tio se dirige ao público.

Tio Alberto

(Bebendo vinho) Não sei se vocês já sentiram isso. Você se distrai numa conversa, por exemplo, e sente vontade de tomar água. Felizmente, ali perto, tem um copo que você acredita que está cheio. Você então o levanta e subitamente percebe o copo mais leve do que deveria. (Enche o copo novamente) Quando eu era criança, foi assim que eu senti a morte. Um parente nosso adoeceu de repente e a morte o rondou durante anos, mas a doença não o vencia de forma alguma. (Bebe) Um dia nós fomos visitá-lo e eu pedi-lhe as bençãos, como era o costume da época. (Olhando a taça) Apertei-lhe a mão e naquele momento, senti que o peso dele não estava lá.
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Nascimentos

Chegamos a este mundo num lugar, mas de verdade, só nascemos muito depois, em outra parte. Só nascemos de verdade, quando descobrimos a que viemos. Chegamos neste mundo cegos, vendo sombras, dependentes dos nossos desejos, incapazes de decidir verdadeiramente. Um dia, por processo ou acidente, chegamos num ponto aonde o nascer  acontece. Neste dia, somos mais vivos do que nunca. Podemos lograr que esse dia permaneça para sempre. Ou podemos retornar ao conforto das sombras e dos nossos desejos intermináveis. Neste dia escolhemos. Verdadeiramente, escolhemos.

A Casa Tomada

“Mais assustador que a idéia de um homem com a cabeça de touro é a idéia de uma casa construída para que as pessoas se percam dentro dela”, Borges – sobre o minotauro e o labirinto.
Eu te amei. Cheguei ao mundo nesta casca e me apaixonei por ela à primeira vista. Me apaixonei pelo que eu sentia através dela. Meus olhos eram as tuas janelas e a natureza era tua cozinha. Um dia senti teu teto e era duro demais e aí nos desentendemos. Teu teto e o meu tinham dimensões diferentes. Eu me afastei de ti, te achando menor que eu, pequena, atrasada e velha. Meu desejo era maior que ti. E com o passar dos anos, o amor que eu sentia virou distância e depois ódio. O esforço que outros desprendiam para que tu permanecesses jovem para sempre me irritava. Desde logo eu soube que quando eu me fosse de uma vez, tua estrutura inteira entraria em colapso e não sobraria nada. Tu dependias de mim, mas eu não dependia de ti. Me afastei de ti, me entreguei aos excessos, me afastei para além de todo limite, mas onde quer que eu estivesse, te carregava junto comigo, como um fardo insuportável. Tentei te destruir com o fogo, o frio, as inundações e os ventos sem fim, mas tu insistias em me esperar. Eu te odiava mais e mais, porque nas tuas paredes ficavam registradas as marcas de todos os meus fracassos e batalhas perdidas. (Abre a porta da casa e entra) Quando minha força de lutar se foi, eu voltei para ti, com a face do humilhado. Tu me sorriste e disseste – “Vamos?” – e então seguimos juntos para o abismo.

Limpeza (para Cortázar)

A casa tinha que estar perfeita. Incólume. Indestrutível. Nada poderia aniquilar sua beleza. Isso Irene herdou de mamãe. Quando éramos crianças, mamãe passava o dia dando ordens aos criados e conferindo o aspecto de cada recanto de nossa casa. Mamãe não se maquiava, nem foi capaz de tingir os cabelos quando a idade chegou. Nunca. Sua maneira de enganar a velhice era manter a casa limpa e em ordem como quando ela era criança. Nossa casa sempre teve o aspecto de uma fotografia. Indestrutível, sempre a mesma, não importa quantos anos tenham se passado. Os parentes se reuniam todos os anos, na festa do aniversário de tio Alberto, que era o irmão de minha avó. Todos os outros parentes envelheciam, todos cresciam, se casavam, geravam mais parentes e finalmente morriam. A casa e tio Alberto continuavam lá. Sempre crianças. Quando tio Alberto morreu, a casa se sentiu vazia. Abandonada. Naquele dia, a casa começou a envelhecer e a definhar. Eu e Irene a herdamos de mamãe e assim como ela passou a vida cuidando de tio Alberto, nós dois passamos a nossa cuidando da casa.

Releitura (para Cortázar)

Viveu a vida como se ela fosse uma cópia forjada de um de seus livros. Cada capítulo da sua vida tentando ser o ápice da trama. A cada parágrafo mais drama, mais reticências, mais insatisfação. Os livros terminavam grandiosos, mas sua vida seguia sempre medíocre e interminável. Um perpétuo capítulo, repetido dia a dia, exaustivamente. Lembrava das mínimas coisas tentando pôr uma lupa nos fatos mais insignificantes. Buscava poesia no nada que era. Mamãe tentou em vão ensinar-lhe a ter os pés no chão. Nada. Seguia inventando a vida, amassando os próprios parágrafos, rabiscando as próprias frases, como se elas sempre saíssem vazias. No dia em que Maria Esther foi embora, ele se sentou na biblioteca e abriu pilhas e pilhas de livros. Queria saber se o seu fim realmente havia chegado. Mas o amanhã veio, com menos drama e menos sentido. E ele seguiu sozinho, virando a página. Sempre se pode reler um livro…

Descontração

Eu olhava para ela ao longe, e aquela distância toda fazia com que eu me encolhesse.

Como se ao me encolher eu fosse capaz de trazê-la para mim.

Como se ao me encolher, ela aumentasse.

Como se a contração de mim mesmo fosse a contração da própria distância.

No dia em que Maria Esther foi embora, eu me descontrai.

E a descontração era tanta que eu me senti vazio.

E nunca mais pude preencher esse espaço.

Duas pelo preço de uma

Ligou numa sexta-feira e precisava do serviço para a segunda. Marcamos um encontro num café e no final, tive que pagar a conta. “Tudo bem”, eu pensei, “depois eu incluo o valor no preço final”. Ledo engano. A mulher tinha mais conversa do que eu, que acabei aceitando serviço em duas prestações por um valor simbólico. Eles são educados desde cedo para lidarem com o dinheiro. Eu, maldito cristão, odeio ter que pensar nisso. Faço por amor.
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O quinto homem

Em Santa Rita do Passa Quatro, eu não passei. Era o quinto.

O guarda me deteve e pediu para verificar a documentação do veículo. Triunfalmente, com meus dois filhos pequenos sentados nas obrigatórias cadeirinhas-do-banco-de-trás eu saquei minha carteira de motorista e mais a papelada do veículo.

“Idiota”, pensei, desafiando a lei. O homem reteve a carteira, vencida a mais de um mês e me diz que vai apreender o veículo.

“Fudeu”, eu disse, vendo a lei cair na minha cabeça. Vinte minutos depois, numa negociação em que eu não podia dizer a palavra dinheiro, e nem o guarda  podia me pedir uma caixinha, o sujeito me apresenta uma solução: arranjar alguém com a carta em dia para dirigir meu carro até que ele saísse de quadro da câmera de fiscalização.

Caralho! Figurante até no meu próprio carro…

A máquina (ou moto-perpétuo)

I.
Ao mover-se, gerava energia.
A energia permitia que ela se movesse.
Mas não havia energia para sempre.
Nem movimento.
Na sucessão de dias, o movimento cessava e a energia para mover era gasta.
A energia gerada não era suficiente para mover o circuito novamente.
Algo falhava no projeto que degradava a energia e o movimento no tempo.
O fixo com sua tendência a permanecer.
Não podia remover o fixo, sem a perda total do funcionamento.
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Cesário

Nasce de cesária.
Nem se esforça pra nascer. Somente nasce.
O peito some logo do seu convívio e logo conhece a mamadeira.
Chupa sem esforço, um leite em pó semi-metabolizado, com vitaminas para que ele não tenha que se esforçar para se curar de uma doença.
Não precisa se esforçar para prestar atenção.
Sua falta de atenção vira doença.
Se vacina, se farmacopeia, se remediza, se acalma com pílulas.
Não precisa pensar. Recorta e cola o pensamento de outros.
Seus fracassos são dissimulados com uma alegria em comprimidos.
Importa o dia de amanhã, em que ele será um campeão.
Alguém paga para que ele avance.
Alguém paga para que ele esteja sempre a frente.
Alguém paga para que ele sempre tenha experiências marcantes.
Mas nada o marca, porque não há esforço.

Se esforça somente para não morrer em vão.