Guardas! Um diálogo kafkiano…

Um homem caminha até chegar a um portão. Do lado da entrada, um guarda.

Guarda

Aqui não pode passar.

Homem

Porque não?

Guarda

Não importa. Não pode. Isso basta.

Homem

Mas preciso passar. Tenho assuntos a resolver.

Guarda

Resolva seus assuntos sem passar.

Homem

Meus assuntos dependem de que eu passe.

Guarda

Então não os resolva.

Homem

(Pausa longa) Por favor, amigo. Preciso realmente passar. Se desejar, posso lhe explicar o que vou fazer do outro lado.

Guarda

Desculpe, amigo, mas a mim não interessam os seus assuntos. A mim cabe apenas impedir a passagem de quem quer que seja.

Homem

(Irritado) Escute, amigo, vou passar com ou sem a sua autorização, compreende?

Guarda

Isso já foi previsto. Pois saiba que depois de mim há um outro guarda ainda maior e mais forte. Você pode passar por mim, mas não será possível passar pelo outro.

Homem

Não importa. Vou passar.

O Homem ameaça e percebe que o guarda não vai impedi-lo. Por fim, passa realmente e caminha um pouco. Encontra mais adiante um outro portão e um guarda mirrado, muito pequeno e fraco.

Homem

Quem é você?

Segundo guarda

Quem faz as perguntas aqui sou eu, meu caro.

Homem

Escute, eu não tenho tempo para conversar com você. Tenho assuntos muito urgentes a resolver do outro lado e…

Segundo guarda

Que desacato é esse? Gostaria de ser preso?

Homem

Você é outro guarda?

Segundo guarda

Como assim: “outro guarda”?

Homem

Sim, porque há pouco acabei de passar por um guarda…

Segundo guarda

Há outro guarda?

Homem

Claro que sim, ali, antes…

Segundo guarda

Não minta, farsante!

Homem

Não estou mentindo, senhor. Há um outro guarda ali atrás, que inclusive me preveniu de que o senhor estaria aqui. Ele me disse, no entanto, que o senhor seria um guarda maior e mais forte.

Segundo guarda

Mas eu sou o maior guarda aqui.

Homem

Aqui sim. Mas entre aqui e lá, o senhor fica muito menor, se me permite a franqueza.

Segundo guarda

O quê?

Homem

Sim. E digo que o outro guarda é um mentiroso.

Segundo guarda

O quê?

Homem

Sim.

Segundo guarda

Me acompanhe, por favor.

Homem

Por quê?

Segundo guarda

Vamos, me acompanhe.

Os dois rumam em direção ao portão onde se encontra o primeiro guarda

Guarda

Alto lá!

Segundo guarda

Quem é você?

Guarda

Quem faz as perguntas aqui sou eu, meu caro!

Segundo guarda

Escute, eu não tenho muito tempo para conversar com você. Esse sujeito aqui está fazendo acusações muito graves e preciso…

Guarda

(Para o homem) Você outra vez?

Homem

Você me disse que o segundo guarda seria muito maior e mais forte que você.

Guarda

Sim.

Homem

Mas esse é o segundo guarda!

Guarda

(Para o segundo guarda) Farsante! Você não é o segundo guarda!

Segundo guarda

Claro que não sou! Supostamente eu seria o primeiro.

Guarda

Primeiro? (Zombando) Ha ha ha. O primeiro guarda sou eu, amigo!

Homem

Mas você é menor que ele.

Guarda

Ninguém pediu a sua opinião. (Coloca-se ao lado do segundo guarda e percebe que realmente é menor que ele)

Segundo guarda

O que será que está acontecendo por aqui?

Guarda

Muito estranha esta situação. O senhor não estava informado da minha presença?

Segundo guarda

Não. Na verdade, sei apenas que há um próximo guarda, maior e mais forte do que eu.

Guarda e homem

Outro guarda?

Segundo guarda

Sim. Mais um.

Homem

Isso é demais!

Guarda e segundo guarda

Ninguém pediu a sua opinião!

Segundo Guarda

(Ao primeiro guarda) Se quiser, poderíamos ir ao próximo portão ver o próximo guarda.

Guarda

Como assim?

Segundo guarda

Vamos verificar se há um terceiro guarda.

Guarda

E quem fica guardando o portão?

Segundo guarda

Ninguém, por hora…

Guarda

(Em dúvida) Hmmm…

Segundo Guarda

Vamos?

Guarda

(Para o Homem) Nos acompanhe!

Os três se dirigem ao próximo portão, onde encontram um terceiro guarda. Maior que o segundo, mas menor que o primeiro.

Terceiro Guarda

Alto lá!

Guarda

Você é o terceiro guarda!

Terceiro Guarda

Você me conhece?

Guarda e Segundo Guarda

Quem faz as perguntas aqui sou eu, meu caro.

Guarda

Eu!

Segundo Guarda

Eu!

Terceiro guarda

Na verdade, aqui neste portão sou eu.

Homem

Desculpe, senhor, eu nada tenho com essa questão. Sou apenas um sujeito que tem assuntos urgentes a resolver…

Terceiro guarda

E esse, quem é?

Guarda

A causa de todo o mal-entendido.

Segundo guarda

(Apontando para o Guarda) Você sabia que havia um guarda antes de mim?

Terceiro guarda

Sabia.

Homem

Senhor, eu só gostaria de passar…

Segundo Guarda

Cale a boca!

Guarda

E quem é o primeiro guarda? Eu ou ele?

Terceiro Guarda

(Aponta para o Segundo) Ele. Não é?

Segundo guarda

Não.

Terceiro Guarda

Não?

Guarda

Não.

Terceiro Guarda

Estranho.

Homem

Estranho demais…

Guardas

Ninguém pediu a sua opinião!

Terceiro guarda

Os senhores aguardem aqui. Terei que verificar com o próximo guarda.

Guarda

Outro guarda?

Segundo guarda

E quantos serão?

Homem

Por hora quatro.

Terceiro guarda

(Para o Homem) Que incoveniente!

Segundo guarda

(Para o Homem) Porque você não esquece disso tudo e simplesmente volta outra hora?

Guarda

Isso.

Homem

Outra hora, outra hora… Eu tenho assuntos URGENTES a resolver!

Guarda

Não me importam os seus assuntos. Você não pode passar.

Terceiro guarda

Aqui quem decide isso sou eu!

Segundo guarda

Claro. Claro.

Guarda

Perdão.

Terceiro Guarda

Não por isso.

Homem

Posso passar?

Terceiro guarda

Não.

Guarda

Eu disse.

Os outros (incluindo o homem)

Ninguém pediu a sua opinião.

Guarda

Claro.

Homem

Eu vou passar de qualquer modo.

Terceiro guarda

Passe! Passe! O quarto guarda… O quarto guarda… Esse sim, é terrível!

Guarda

E há outros, viu!

Segundo guarda

Outros?

Guarda e Terceiro guarda

(Combinados, como que fingindo) Há sim! Muitos outros. Milhares!

Homem

Não me importa. Vou passar! (E sai)

Terceiro guarda

(Pausa constrangedora) Quem é o primeiro guarda?

Guarda

Sou eu.

Terceiro Guarda

É por estas razões que não devemos deixar as pessoas passarem, entende?

Guarda

Mas ele… mas ele…

Segundo guarda

Que vergonha…

Terceiro Guarda

Você não tem nada que reclamar, uma vez que o sujeito também passou pelo seu portão.

Guarda

(Zombando do segundo) Ha ha ha!

Terceiro guarda

As pessoas fazem perguntas demais. Nosso trabalho é simples: não deixar as pessoas passarem. Só isso.

Segundo guarda

Só isso?

Guarda

Só.

Segundo Guarda

E onde está o sujeito?

Terceiro guarda

(Silêncio)

Guarda

(Em desespero) Ele passou?

Segundo Guarda

Passou. Agora mesmo.

Guarda

E o que fazemos?

Terceiro guarda

Ele vai encontrar o quarto guarda e desistira.

Guarda

Mas existe um quarto guarda?

Terceiro guarda

Acho que sim.

Segundo guarda

(Imitando) Acho que sim… acho que sim…

Terceiro guarda

Que desacato é esse? Gostaria de ser preso?

Guarda

Eu gostaria de ver o quarto guarda.

Segundo e Terceiro guarda

Não pode passar!

guarda

Vocês não ficam curiosos?

Segundo e Terceiro guarda

Não.

Guarda

Quero dizer, há pouco eu era o único guarda e achava que havia outro maior depois de mim. E a coisa acabava aí.

Segundo guarda

Eu não faço muitas perguntas. Acho que é o melhor a se fazer.

Terceiro Guarda

Concordo. Voltem aos seus postos!

Segundo guarda

(Batendo continência) Sim, senhor!

Guarda

Até a próxima vez!

Segundo guarda

Não haverá próxima vez. Você veio longe demais!

Terceiro guarda

(Para o segundo guarda) E você também. Vão agora!

Guarda

(Batendo continência) Sim, senhor!

O Guarda e o Segundo Guarda saem. Entra o homem, em sentido oposto.

Terceiro guarda

Aqui não pode passar!

E recomeça a cena, em espelho. O terceiro guarda passa a dizer as falas do primeiro e vice versa.

Fim

1 Comentário »

  1. kikisimoes disse:

    meu adoro seu trabalho comecei a pesquisar sua carreira em virtude do cabeça da serie q q é isso na net e agora espero pode acompanhar as suas atuações pela blog ou pelo twiter é q tento sempre acompanhar os artistas paulistas ah e já to na empreitada da divulgação do blog marcha mundial pela paz por enqto é só bjus

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Será que dá para consertar meu…

Vou botar nesse post uma lista dos sites que eu visito quase todo dia, para aprender a arrumar tralhas que os parentes me descolam…

I FIXIT – http://www.ifixit.com/ – O cara que fez esse site tinha uma assistência técnica da Apple e resolveu criar uma Wikipedia com manuais de reparo de diversos aparelhos. Não sei se você sabe que esses manuais de reparo são segredos industriais que as empresas só liberam para quem faz o curso de manutenção do equipamento deles. Se você não fez o curso e a sua coisinha quebrou, ou você manda alguém que fez o curso consertar, ou já era! Joga fora!

Instructables – http://www.instructables.com/ – Se você está curtindo essa seçãozinha do meu blog, melhor conferir o que esse pessoal faz. Tem de tudo lá: receita de bolo, trabalho de pedreiro, coisas de marceneiro. Tudo o que você imaginar de “Faça você mesmo”. Lindo demais!

Make Magazine – http://makezine.com/ – Os negos do instructables sempre postam dicas desse site e vice versa…

Comecei a estudar uma coisa chamada ARDUINO, que é uma plataforma de Hardware livre. Uma plaquetinha que dá para você fazer um monte de coisas com ela. Dai uma parada nos estudos porque a oficina está zoada, mas vale a pena ver.

Não jogue fora suas coisas velhas

Aparelho de som Greynolds, que meu velho comprou em 1979. Recuperei o bicho e forrei as caixas com meus gibis velhos do Akira e outros mangás.

Eu fiz curso técnico em eletrônica um dia. Antes de o Collor abrir as importações.

As pessoas costumavam levar suas televisões nessas oficinas de bairro, onde o sujeito deixava a TV funcionando de novo. Depois começou essa besteira de que é melhor comprar outro novo do que consertar. Claro! Os caras das oficinas trocavam peças de R$ 0,10 na TV e depois diziam que tinham trocado o tubo. Essas merdas! Como o preço das coisas caiu um pouco e apareceram duzentas mil opções de crédito e parcelamento, ficou mais fácil pagar R$ 10,00 na parcela da TV nova do que pagar R$ 50 para o cara arrumar a velha.

E tome lixo eletrônico!

Aqui em casa eu consertei meu DVD da Philips. Paguei R$ 45 no leitor, que eu comprei no Mercado Livre. Abri o bicho, troquei e agora espero que dure outros cinco anos. Um DVD Player novo está na fixa de R$ 140. Quer dizer que eu economizei quase R$ 100! E nem é tão complicado assim. Se você brincou de Lego uma vez na vida, vai ver que é a mesma coisa. Tire os parafusos, abra a máquina, solte os fiozinhos com cuidado. Observe o lugar onde eles estavam encaixados. Se você for esquecido, cole umas fitas crepes com letras ou cores. A com A. B com B.

Tire a peça velha, coloque a nova no lugar, feche com cuidado e ligue. Guarde seu dinheiro para fazer algo melhor.

Olha esse sonzera que foi do meu pai. O velho comprou isso em 79. Deixei um tempo na sede do Movimento, os negos zoaram o bicho todo. Trouxe para casa, abri, limpei, consertei, montei de novo e customizei as caixas usando gibis velhos e cola branca.

Sabe quantos 3 em 1 meu pai teve depois desse som? Três. Isso é o que significa Três em Um. Três merdas para um bom.

Caçambas

Duas cadeiras de acrílico que eu salvei da caçamba. O encosto de uma e o assento da outra estavam quebrados. Com um trabalho de serra elétrica, transformei as duas nessas banquetas.

Eu aprendi a vasculhar caçambas quando fazia teatro no curso Anglo, lá em Osasco. Na época o dono nos dava a maravilhosa quantia de R$ 50,00 para a produção de nosso espetáculo de encerramento. A prefeitura de Osasco desapropriou um quarteirão inteiro ali no centro, para a construção do hospital público. Eu passava por ali todo santo dia e ficava olhando aquelas casas sendo destruídas. Janelas, portas, fiação, disjuntores, vasos sanitários… Tudo no lixo.

Gastei os R$ 50,00 comprando fardo, que é um tecido que se usa para embrulhar tecidos no atacado e é vendido por peso. Comprei um rolo de arame e juntei o povo do elenco para trazer coisas das caçambas que pudessem nos ser úteis.

Dai em diante, não posso passar perto de lixeiras e caçambas nos bairros nobres. Higienópolis e Vila Madalena são demais! Na época em que a gente tinha a sede do Movimento Humanista na Albuquerque Lins, fiz um monte de coisas com lixo de caçamba.

Essas duas banquetas foram cadeiras de acrílico que eu encontrei quebradas, numa lixeira na Vila Madalena. Uma delas tinha o encosto danificado e a outra estava com o assento. Vi a área útil que as duas tinham em comum, cortei o excesso com serra makita e fiquei com duas banquetinhas transadas. De grátis e ainda faz bem ao meio ambiente!

Painel de Ferramentas

Da lama ao caos

Tem quase dez meses que a gente se mudou aqui para o Butantã, onde eu pude finalmente construir uma oficina para as minhas gambiarras. Eu já devo ter arrumado essa bancada umas mil vezes. Sou um sujeito muito desorganizado e apressado, então as coisas precisavam ficar mais fáceis de eu pegar e de largar também. Minha oficina ideal teria um robô chamado Amélia, que ia limpando tudo e guardando as ferramentas no lugar. Um dia eu termino de construir ele. Por enquanto, fiz esses painéis de ferramentas com dois fundos de armário em MDF que eu encontrei em alguma caçamba por aí.

Luminária de enceradeira

...se pintou de vermelho carmim, se eletrificou, se acendeu...

Eu ganhei essa enceradeira da minha sogra e lá na casa velha ela passou cinco anos atrás da porta da cozinha.

Nunca precisamos usá-la como enceradeira, mas eu gostava do visual da coisa e sempre pensei que ela poderia se transformar em outra coisa.

Ela se transformou nessa luminária para a minha oficina e o motor dela foi o meu primeiro esmeril-gambiarra…

Concha de Feijão Elétrico

Pegue duas conchas de feijão...

Aqui uma luminária, que eu construi usando conchas de feijão e um prato de plástico.

Tá aqui na casa da gente, no Butantã.

Dia 11

Pronto para dar o próximo passo…

Quando me movo daqui, o que eu quero realmente?

Algo para mim?

Quis deus como algo para mim?

Quis o deserto…

E ainda o cacto, o bastão, a água oculta, o próximo passo…

Quis me desapegar da vida e vim até aqui. Até o vazio.

Aqui percebo que ainda quero algo.

Percebo que quero o vazio.

Posso me livrar da companhia do desejo?

É possível um amanhã sem o desejo?

Dia 10

Voltando mais uma vez a essa duna, ou à próxima.

Voltando mais uma vez ao deserto.

Terei eu saído daqui em algum momento?

Terei eu vivido fora dessas areias?

O antes, com sua companhia insuportável, terá existido?

Não teria tudo sempre sido esse agora? Sempre a repetição deste instante?

Sempre a mesma duna, o mesmo deserto, o mesmo homem buscando deus ou a solidão?

Um nada buscando outro.

Dia 9

Desde o dia de ontem, os dias ficaram mais presentes.

Não há ninguém para agradar.

Nem uma viva alma.

Nem deus.

Nem cacto.

Nem o maldito deserto.

Não se agradam de mim nem eu deles.

Um enfadonho e permanente agora.

Sem recompensa alguma pelo final.

Sem castigo pelo erro.

Sem nada.

Porque o tempo passaria?

Porque haveria um amanhã?

Um amanhã verdadeiro, não o ontem travestido de possibilidades.

No entanto, o amanhã real chegará. Não o amanhã do filósofo, o amanhã eterno. Não.

O amanhã do natimorto chegará.

O amanhã que se encurta, ampliando cada vez mais o ontem.

A morte.

Um deserto – dia 8

Não saio dessa situação de estar perdido.

Qualquer movimento parece ter muita importância.

Acabo acuado e imóvel, com a sensação de estagnação dominando tudo.

Que fazer para sair daqui?

Porque eu voltei aqui? Na verdade essa é a pergunta correta a se fazer.

Porque eu voltei aqui?

Por hábito.

Sempre me movi desde este lugar. É como voltar para casa.

Voltar a um ponto conhecido do caminho para, desde aí, tentar seguir adiante. Isso fazemos quando estamos perdidos.

Eu estou perdido?

Um homem olha a paisagem que tem diante dos olhos e não a reconhece.

Está perdido?

Está num novo território.

Não tem ainda a cartografia dominada.

Está perdido?