I.
Ao mover-se, gerava energia.
A energia permitia que ela se movesse.
Mas não havia energia para sempre.
Nem movimento.
Na sucessão de dias, o movimento cessava e a energia para mover era gasta.
A energia gerada não era suficiente para mover o circuito novamente.
Algo falhava no projeto que degradava a energia e o movimento no tempo.
O fixo com sua tendência a permanecer.
Não podia remover o fixo, sem a perda total do funcionamento.
II.
O fixo ancorava o movimento.
Era o chão firme onde o movimento acontecia, gastando e gerando energia.
Removia partes do fixo, imaginando a máquina sem elas.
Algumas faziam mais falta do que outras, mas o fixo de todo não podia ser removido.
A própria engrenagem do que se move é feita do fixo, concluiu.
O movimento do fixo parecia então um falso movimento.
Parecendo uma caricatura do movimento verdadeiro.
Parecendo uma piada de mau gosto.
III.
Ainda assim, o fixo se move, uma vez que se imprima uma energia constante.
De que é feito então o fixo?
De mais partes fixas?
É possível o fixo do fixo?
O fixo do fixo não se oporia a mover-se, recusando toda possibilidade de mudança?
O fixo do fixo não se romperia, antes de ceder ao movimento?
A ruptura é mudança.
Então não é possível o fixo do fixo.
Há sempre algo móvel.
A ruptura é mudança.
Romper-se para mover-se.
No fixo está o móvel.
No fixo está a possibilidade.
Será o fixo uma ilusão?
IV.
O fixo, sendo possivelmente uma ilusão e essencial ao movimento, não pode ser a razão do mau funcionamento da máquina.
Talvez o tempo.
O tempo em si degrada o movimento.
O tempo tende a tornar o movimento fixo.
Entendendo ainda o fixo, como a degradação daquilo que se move, o fim da energia.
O movimento tendendo à fixidez. Tendendo à ilusão?
Será o fixo, uma ilusão?
Ainda assim, no tempo, a máquina cessa o movimento e cessa a energia.
Entre o tempo diário e o tempo infinito, a máquina cessa seu funcionamento, tendendo menos ao infinito do que ao cotidiano, na medida da proporção e da harmonia entre suas partes.
Quanto mais harmônica, mais tende ao infinito e ainda assim, cessa.
A máquina voltando ao seu estado inicial e necessitando de mais energia para funcionar.
Gastando energia ao funcionar, sem gerar energia suficiente para continuar se movendo autonomamente.
Sempre ávida por energia.
Sempre tendendo ao passado.
V.
A máquina, talvez, devesse ser construída já se movendo.
Já em processo.
Sendo a origem o próprio movimento, a máquina, com sua propensão ao passado, tenderia sempre a buscar o movimento e então jamais cessaria de mover-se.
A base da máquina sendo o móvel e não o fixo.
A base da máquina sendo o infinito e não o finito.
Pensa a harmonia das peças, a beleza dos encaixes feitos para serem montados em movimento.
Cada detalhe do projeto, cada pequena conexão.
Falta o início.
Falta o início, mas o infinito deve prescindir de um início, assim como prescinde do fim.
A máquina deve ser montada em movimento toda de uma vez, para que nenhuma parte permaneça fixa. Para que nada tenda ao fim.
Como montar a máquina com todas as peças se movendo ao mesmo tempo, em relação umas com as outras?
Como calcular o momento exato do encaixe perfeito entre todas as peças.
A harmonia perfeita.
Vai precisar de ajuda.
Vai precisar de ajuda, são muitas as peças.
Vai precisar de velocidade, de precisão.
De um cálculo perfeito, para que tudo se encaixe perfeitamente.
Ainda não tem clara a máquina, mas sabe que é possível.
VI.
Observa agora a máquina que tem diante de si, a primeira, e têm claro nela as imperfeições.
A desarmonia de suas partes.
O modo como elas foram montadas estaticamente para depois mover-se, tendendo por isso, ao estático.
A condição de origem equivocada, apoiada no fixo e não no movimento.
Como pode ter se equivocado tão grandemente?
Agora que sabe que a máquina infinita é possível, seus feitos anteriores parecem menores.
Ainda assim, houveram acertos.
Ainda assim, essa máquina imperfeita foi o degrau que o possibilitou pensar na máquina infinita.
Apenas o degrau.
Um degrau como tantos outros.
Como o anterior.
E pior ainda, como o próximo.
Ainda um degrau.
Apenas mais um passo e não o passo definitivo.
Apenas mais um movimento e não o lugar de chegada. O ponto fixo.
O fixo nele e não na máquina.
Ainda assim, o fixo.
VII.
Percebendo o fixo em si mesmo, compara-se à maquina.
A necessidade da máquina infinita se faz ainda mais evidente.
Como se a máquina infinita fosse a rendenção de sua própria fixidez.
A concretude da máquina infinita e a flexibilização dele mesmo.
A fixidez da máquina e o movimento dele.
A máquina infinita, pronta, acabada.
Terminada.
Realizada.
E ele se movendo, sempre.
Sempre sem fim.
Em direção a outra coisa.
A outro projeto.
Para onde se moveria quando terminasse a máquina?
Terminaria a máquina?
Seria possível?
Entre a máquina infinita e seus projetos sem fim, o vazio.
Um vazio.
Um vazio tendendo a ser preenchido.
Um vazio clamando por algo.
Não um vazio inerte, fixo.
Um vazio que se move em direção a algo.
Um vazio como ele mesmo.
Como a máquina infinita.
Como tudo.
Um vazio buscando energia e gerando energia nessa busca.
VIII.
Que algo é esse em direção a que o vazio se move?
Não se gastaria esse objetivo quando o vazio o alcançasse?
Não um algo provisório.
Um algo permanente, não fixo.
Um algo sempre se movendo?
Um algo também tendendo a algo?
Um algo vazio, de certo modo?
Um vazio tendendo a outro?
Não.
O vazio tenderia a completude.
Àquilo que realmente importa.
Esse algo.
É possível algo permanente, não fixo e completo em si mesmo para onde o vazio tende?
É possível algo tão essencial, tão íntegro, tão profundo, que permitisse ao vazio permanecer vazio e ainda assim, buscando?
Que promessa é essa que move o vazio em direção ao infinito, gerando infinita energia, sem se gastar nunca?
IX.
Não se cansaria o vazio de buscar esse algo, sendo somente uma promessa?
Não falsearia a concretude desse algo, buscando imitações do algo inatingível.
Provisoriedades, que compensassem a busca permanente daquilo que não pode ser obtido?
Como esse algo logra que o vazio o siga perseguindo?
Que faria o vazio, atingindo esse algo?
Seria completado?
Neste caso, o movimento cessaria.
Também o vazio e o algo, se aniquilando.
Para que o movimento não cesse, o algo precisa dar ao vazio aquilo que nunca o irá preencher totalmente, porque o vazio não foi feito para ser preenchido.
Mas o vazio se cansaria dessa promessa.
Precisa ser algo infinito.
Uma energia infinita, sempre consumida pelo vazio, também infinito.
O vazio e o algo não se possuindo. Não se aniquilando.
Nem o algo ilude o vazio, nem o vazio gasta o algo.
Vazio e algo se necessitando mutuamente.
X.
É possível uma máquina infinita, com peças não fixas, sempre em movimento.
Uma máquina feita do vazio e de algo que é buscado pelo vazio, ao mesmo tempo que busca o vazio.
O vazio e algo que busca o vazio e é buscado pelo vazio.
Nem o vazio é fixo, nem aquilo que ele busca.
O algo permanente não fixo, buscado infinitamente pelo vazio.
A máquina capaz de gerar energia infinita e de se mover infinitamente.
A máquina profunda, infinita.
Que não cede ao tempo, não termina nele.
Em movimento, sempre.
Sem nunca parar.
Nunca gastar.
A permanência em não permanecer.
O vazio abraçando infinitamente o algo que abraça infinitamente o vazio.
XI.
Uma máquina que não é feita de nenhum deles isoladamente.
Nem do vazio, nem daquilo que busca o vazio e é buscado por ele.
Nem a máquina é o vazio, nem aquilo que o vazio busca.
Para encontrar o vazio perfeito, é necessário encontrar aquilo que atrai o vazio.
O permanente não-fixo.
Para encontrar o permamente não-fixo, é necessário fazer o vazio.
Isso é a máquina. Essa busca.
XII.
A máquina é o próprio movimento e a energia que o move.
A máquina infinita, nem máquina é.
É a possibilidade futura, infinita.
Capaz de mover tudo infinitamente.
A que nunca é consumida, nem consome e ainda assim, se move.
Que não é dada porque não pertence a ninguém.
A proporção perfeita de tudo.
A que supera o tempo.
O que não é manifesto em tudo, mas que em tudo está.

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