Ontem eu presenciei um fato que me fez pensar na importância do humor frente aos fatos. Estava particularmente reflexivo, atormentado por intensos conflitos filosóficos enquanto lia um livro do Dalai Lama. Pensava na minha vida, nos rumos que ela tomou, em quais tem sido as minhas verdadeiras prioridades… Enfim, eu era um pouco Hamlet.
Enquanto isso, ao meu lado, estavam quatro seguranças patrimoniais, numa brincadeira de disputa e tiração de sarro. Cada hora um simulava ser o chefe do outro e lhe dava uma ordem sempre absurda e ofensiva. E eles prosseguiam nesse jogo, alheios a toda hierarquia, todo protocolo, toda burocracia da função. Brincavam como crianças, usando ternos de adultos. O jogo culminou com um lance em que um dos seguranças molhou o outro com um borrifador de água. O outro, por sua vez, tomou o borrifador, abriu a tampa e jogou a água em grande quantidade no primeiro. Se ofenderam mutuamente e, para não brigarem, terminaram o jogo.
Em algum momento as duas cenas se tocaram, a minha e a dos seguranças, do contrário este texto não teria sido escrito. As interferências mútuas, no entanto, poderiam não ter se limitado às nossas observações. Nesse jogo me cabia o papel de espectador, mas e se o jogo se dirigisse a mim? E se eu, o aristocrata da situação, me visse envolvido naquela disputa de alguma maneira? Se aquilo me dissesse respeito? Se aquele entretenimento sem função pudesse alterar profundamente o rumo da história em que sou protagonista? Não teríamos, neste caso, “uma cena dos coveiros” de Hamlet? Ou um dos episódios em que Trínculo, Estéfano e Caliban tramam contra Próspero?
Por entendermos que há algo de muito importante em jogo é que essas cenas são indispensáveis. A qualquer momento, apesar de toda pompa, de toda magnificência e de toda filosofia, três idiotas podem assassinar Próspero. Essa cena acrescenta humor e a sensação de perigo banal, diferente da conspiração tramada por Antônio e os nobres, que fica no plano das idéias.

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