Sarampo

Hoje, no trem, eu fui encontrado por um sujeito com deficiência nas duas pernas, motivada, segundo ele, por um sarampo.

Ele começou pedindo a todos que vacinassem as suas crianças amanhã e prosseguiu o seu discurso, extremamente bem articulado, falando dos remédios e das dores, o de sempre, mas de forma tão coesa e tão convincente que a recepção foi geral. Muita gente lhe deu dinheiro!

Ao receber as moedas ele incentivava o passageiro: “Isso, minha tia! Muito obrigado!”

Encerrou seu discurso com uma reafirmação de sua preocupação com a vacina e saiu do vagão deixando todos satisfeitos!

Genial!

Coração Partido

Roda no Micael

Quando a gente é criança, ama tanto alguém, em tamanho silêncio, que até dói. Eu tinha me esquecido dessa dor de estar apaixonado e não ser correspondido. Essa dor de criança. Fui dispensado do Micael no sábado e estou com o coração partido desde então, como se o amor da minha vida tivesse me deixado.

Nada que eu tenha escutado, nada que eu pense, nada além do tempo parecem curar essa dor no peito. Essa dificuldade em seguir vivendo do mesmo jeito.
Nem mesmo estar no palco aliviou esse sentir. Nem mesmo o amor da minha família, tão especial. Nada.
Estou de aviso prévio, até dezembro, mas já não estarei com eles. Nem sei com que coração eu vou até lá assinar a papelada toda da minha demissão nessa semana.
Agora mesmo eu só penso que isso pode ter acontecido para que eu entenda de uma vez o que eu sei fazer com o teatro.

O silêncio

Trabalhei como um camelo para que as coisas saissem bem. Não desliguei do assunto um só momento, pensando em cada um deles, no melhor que eu poderia dizer ou fazer para que eles conseguissem se divertir com a busca. Me ancorei no senso de humor, que me permite dizer coisas duras com a leveza necessária para que elas sejam ouvidas. Estreamos e tudo correu bem.

Há um certo milagre no teatro, que a gente que vive disso conhece: as coisas se ordenam na última hora, porque o espectador exerce um poder misterioso sobre o ator que o ajuda a superar as suas limitações e a se entregar plenamente na experiência.
Mas alguma coisa não saiu bem.
Quatro dias depois do término, tive um encontro com minhas parceiras de trabalho para avaliar o processo e ouvi delas que eu fui negligente, descuidado com o ritmo, desleixado com as minhas funções, que haviam feito o que eu deveria ter feito e que por isso se sobrecarregaram. Que de minha parte faltava abrir a comunicação, que na última hora eu faltei, que não agüentei o processo e por isso fiquei doente, que não fui recíproco, que fui duro demais, que me isolei. Que a peça tinha acontecido bem por milagre.
Eu ouvi tudo isso e sentia que havia verdade nisso. Mas alguma coisa me soava falso.
Que milagre foi esse que fez essa peça acontecer, apesar de um diretor tão ausente?
Milagre é o sujeito nunca ter dirigido uma ópera, ter inclusive resistência a musicais, não entender nada de música e ainda assim, fazer com que um grupo de atores tenha segurança para seguir fazendo a peça até que as coisas vão se ordenando. Aqueles atores entendem muito mais de música do que eu e se eu conseguisse deixá-los seguros no palco, o jogo deles com a música ia dar um jeito de a cena acontecer, mesmo que eu ainda não enxergasse como. Porque é nos atores que mora o teatro.
Milagre é o sujeito se ver diante de um elenco de 29 pessoas com quatorze anos e achar um acordo de grupo em que os 25 atores que estão fora de cena respeitem os outros quatro que estão no palco, ficando em silêncio, cantando, preparando as coisas para as próximas cenas. Milagre é ver um ator que mal conversava comigo ter segurança para expôr uma idéia e vê-la incorporada na peça. Também é um milagre que os outros professores me procurem na sala de ensaios e não me encontrem, embora eu esteja na roda, bem diante deles.
O milagre mesmo é a roda e essa capacidade de nos horizontalizar.
Aquelas pessoas todas, atores, pais, parceiros, músicos, professora… todos eles sabiam mais do teatro que queriam ver do que eu. Se houve um milagre, foi ajuda-los a enxergar isso.
Talvez eles tenham esperado que eu mandasse mais.
Mas eu não quero fazer assim.
Teu jeito é melhor para você do que o meu jeito.

Pequeno currículo das essências

Teatro nasceu tarde. depois de uma enxaqueca.

Desde os doze anos elas me tomavam de assalto, sem razão aparente, e me obscureciam o campo de visão. Estreitavam, tornavam turvo. Estômago embrulhado, intestino fermentando, topo da cabeça doendo, cegueira parcial. Deitava na cama, com a cabeça doendo e ficava o dia inteiro no escuro. Minha mãe fazendo compressa com pano embebido em álcool. Daí passava sozinha.

Eu ficava meses sem ter nada disso, mas quando ela estava se aproximando eu sabia. Já me preparava para o baque. O enjôo vinha primeiro e depois um pontinho luminoso na frente dos olhos, que ia aumentando para fora, seguindo o raio do olho. A dor de cabeça vinha no final de tudo.

Naquele tempo eu já falava muito em fé, porque tinha sido curado da febre reumática por homeopatia, um monte de bolinhas brancas e doces e um médico engraçado e muito grande. Não tinha sido uma cirurgia, ou injeção, ou comprimido. Doce. E bons conselhos e fé na cura. E eu estava vivo.

Mais tarde eu fiz eletrônica, porque já sabia como comandar um computador mas não entendia como ele funcionava por dentro. Gostava de saber disso, de como as coisas funcionam por dentro, talvez para entender como eu mesmo funcionava por dentro. Me meti a aprender isso e logo as enxaquecas recomeçaram mais fortes. O tempo entre elas diminuía. Mas a dor de cabeça já não era tão grande. O enjôo era o pior.

Eu olhava em volta e parecia estar fazendo tudo certo, quero dizer, tinha estudado, passado num mini vestibular, o curso era gratuito e eu tinha sérias possibilidades de estar empregado no final. Mas eu desenhava e desenhava. Terminava de fazer as infinitas contas, os senos e os cossenos, as matrizes, os xis… E desenhava. Desenhava no meio das contas, no final do caderno, na mesa, na capa dos livros.

Ela passou pela minha mesa e viu meu desenho. Eu tentei esconder a tempo mas não consegui. Ela que até aquele dia era só uma bunda me perguntou o que eu estava fazendo ali, no meio daquela gente. Me disse que eu era um artista e que eu podia estar em outra situação, que não precisava seguir aquela trilha. Me disse que tinha uma escola da prefeitura que dava cursos gratuitos de desenho e que eu poderia me especializar.

Segui a bunda e comecei a aprender a desenhar. Em quatro semanas eu terminei o módulo de um ano. O professor veio conversar comigo e disse que eu deveria ir para o módulo dois. Eu perguntei o que a gente ia aprender. Ele me disse que eu ia aprender a pintar. Eu fiquei pensando se eu tinha paciência para passar uma tarde pintando… Enquanto eu pensava apareceu um velho e colocou a mão no meu ombro. Achei que era meio bicha.

O velho foi falando que era professor de teatro na prefeitura e que o curso estava encerrando as inscrições naquela semana e que se a gente quisesse poderia se inscrever. Eu perguntei se era de graça e ele disse que sim. Pensei, vou falar para a Denise, que é minha irmã e ela vai querer fazer, porque já tinha me perguntado.

Sai do curso de desenho quase pensando em desistir de passar as minhas tardes pintando. Ia ter que comprar tintas e pintar cavalos durante meses. Falei a novidade para a Denise e ela me chamou para ir junto com ela na aula de teatro. Falei, vou, mas não vou fazer, vou ficar só olhando e dando risadas. Na sexta-feira fomos nós três, eu a Denise e a Dayse e mais uns amigos da rua. Daí que eu só fiquei no teatro.

Lá eu conheci uma menina que era linda e só ganhava concurso de miss simpatia, porque estava um pouco acima do peso. Ela era muito engraçada e era tão deliciosa que eu nunca podia imaginar que a gente seria namorado durante nove meses e eu nunca conseguiria transar com ela. Logo logo por liderança minha e mediocridade da produção teatral Osasquense eu me tornei um dos bons atores da cidade. Ali eu me dei conta, tristemente, que a liderança resolveria 90% dos meus problemas e criaria 100% deles.

Descobri César Vieira no livro, e o teatro União e Olho Vivo. Também achei Boal e detestava o Stanislavski, porque achava o livro uma merda. Li o Ponto de Mutação, do Fritjoff Capra e o Yoga para Nervosos, do Hermógenes. Comecei a ter umas experiências muito estranhas quando fazia os relaxamentos. Umas compreensões estranhas e a sensação de que me independizava de meu corpo.

A gente se tocava, podia se jogar que o outro segurava. Rolávamos no chão uns por cima dos outros e conversávamos sobre qualquer coisa possível. Nos víamos quase todos os dias, ou porque resolvíamos ensaiar, ou porque queríamos nos ver. Escrevíamos cartas uns aos outros com coisas lindas, porque estávamos todos apaixonados uns pelos outros e por nós mesmos.

Fiquei tão cego pelo que descobri ali que achava que o velho não estava fazendo nada. E ainda tinha vezes que eu sentia que as pessoas poderiam ir mais longe ainda, só que ele não via. No grupo, quando a gente ensaiava sozinho, conversávamos sobre a ausência de critério do velho e dizíamos que a peça éramos nós quem estávamos fazendo, sem direção nenhuma. Daí quando ele resolveu tirar um dos atores do elenco faltando uma semana para a estréia, nós que estávamos fazendo tudo sozinhos resolvemos opinar. O velho nos pediu para escolher entre o ator ou ele e eu sugeri que nós votássemos. O velho perdeu e eu perdi tudo…

A menina linda foi embora, porque na votação ficou em cima do muro e depois ficou ao lado do velho. Me torturava com os comentários das outras pessoas sobre a minha traição e eu ficava atrás dela obssessivamente, porque tinha ficado com ela nove meses e me perguntava todos os dias o que é que ela tinha visto num sujeito como eu. Busquei o perdão de todos, mas só consegui me reconciliar com a situação cinco anos mais tarde, depois de muita análise.

Deixei o teatro de lado e fui trabalhar consertando computadores. Tinha cansado da brincadeira e estava ferido demais para continuar. Mas estava irremediavelmente tocado pelo Teatro e logo optei por fazer faculdade de artes cênicas, depois de um vestibular para engenharia perdido e outro para psicologia. Meu velho cortou a verba e eu pagava o cursinho com o salário inteiro que recebia da assistência técnica.

Naquele ano os donos do cursinho resolveram criar umas atividades para desestressar os alunos e incluíram o teatro no pacote. Eu era o único sujeito que estava fazendo cursinho para prestar artes cênicas, porque meu curso de eletrônica era tão fraco que eu não entendia nada de história, química ou biologia. Lá formamos um outro grupo, e eu estava um pouco mais distante. Não queria me apaixonar por aquelas pessoas e estava com um pouco de vergonha de ainda querer fazer teatro.

Ali aprendi Teatro do Absurdo, Ionesco, Brecht, Peter Weiss, a beber muito e a fumar maconha. Aprendi a pegar as meninas quando estava bêbado mas ainda assim não consegui trepar com ninguém, embora eu tivesse muitas oportunidades.

Entrei na USP carregando um pacote maluco: fazia teatro no cursinho, trabalhava no Bradesco e cursava 14 créditos pelas manhãs todos os dias. No fundo eu tinha medo que não desse certo fazendo teatro e que aquilo acontecesse tudo outra vez. Eu não podia me apaixonar pelas pessoas. Precisava manter uma reserva segura. A classe estava dividida em dois grupos: uma moçada recém saída dos melhores colégios e uma rapaziada mais velha, que tinha vindo de outra área. Eu olhava aquilo e pensava que a banca do vestibular estava fazendo alguma experiência macabra.

Tinha 21 anos, um coração partido, nunca tinha trepado na vida, o corpo todo torto e condicionado pela minha relação com os computadores. Resolvi ler um clássico de cada autor. Descobri Kafka, Dostoievsky, Nietszche. Descobri Reich alucinadamente. Li tudo o que podia. Comecei a fazer análise para entender de onde vinha o meu constrangimento com as mulheres. Estava num grupo de velhos ranzinzas de 30 e poucos anos e menininhas de 18 anos deliciosas que eu nunca comeria. Fazia quatro matérias por semana e me cansei disso.

Fui até a diretora da Escola do Bradesco e disse que gostaria de diminuir meu salário e trabalhar menos. Ela me disse que o Banco não tinha esse cargo. Eu disse que então eu queria que eles me demitissem. Ela me disse que se eles me demitissem eu não poderia trabalhar em nada relacionado ao Banco. Então eu pedi demissão e perdi minha indenização e FGTS, por medo de que o Teatro não desse certo e eu tivesse que voltar.

No outro ano eu me apaixonei de novo por aquela gente toda. Arthur, Glaucia, Paulina, Ana, Paula, Roberta, Nilson, Tony, André, Valtinho, Paula, Zédu, Kelly (que depois eu odiei)… Achei o Teatro de novo e mergulhei de cabeça, sem um puto no bolso. Aí eu conheci outro velho que eu não entendia.

Entrava na sala e se sentava no chão. A gente fazia uma roda, e depois a aula virava outra coisa, que coisa era aquela? O que tem que fazer? Ele não vai falar? Que coisa de caminho é esse? Homem para o ator? Existe isso? O ator não é o homem? Eu não gostava daquela idéia de que o artista era algo mais que o homem comum, porque na hora de pagar as contas o homem comum se vira muito melhor. Eu tinha medo disso. Tinha medo de avançar e de recuar.

O velho me deu as perguntas que nunca mais me abandonaram.

Conheci o mímico também. E com a mímica, conheci meu corpo de outro jeito. Eu podia ser um engenheiro da minha postura. E fui me corrigindo, me flexibilizando, me liberando.

Ela me achou então. Era uma predadora de sujeitos como eu. Era uma ratoeira, toda intelectual, toda articulada. E deliciosa também. Me pegou lendo um texto meu, sentada em cima de uma mesa com as pernas abertas. Cada vírgula era malícia. Me ensinou filosofia e a trepar alucinado. Passei a ter sexo. Fui me enfiando no teatro e nela com a mesma intensidade. Me descobri multi-artista, passei a freqüentar as artes plásticas e ela o Teatro. Nos misturamos tanto e muito e muitas vezes. Até que nos cansamos um do outro.

Quando acabamos um com o outro eu tinha mudado. Sabia o que queria, mas não sabia como.

Fiquei num grupo que não era o meu e depois em outro e outro. Achei parceiros, amigos e uma esposa.

Fui num ensaio de um amigo e ela estava lá. Eu achava que já tinha visto ela em algum lugar, mas não sabia onde. E essa sensação me acompanha até hoje. Tava legal ficar sozinho, sem namorar ninguém. Além dela tinha uma japonesa com uma boca linda, que eu ficava tentando comer e que nunca dava certo.

A gente foi comer um dogão na porta da USP e ela começou a me cantar, daquele seu jeito mineiro. Quando percebemos eu estava apaixonado e tinha que dizer isso.

Bebíamos, conversávamos sobre o mundo, sobre o ser humano, sobre o futuro da humanidade. A gente ia sacando uma conexão muito louca e nunca nos lembramos de onde nos conhecíamos. Ela falava, eu já te conhecia das peças mas a gente nunca conversou. E eu duvidava disso.

Fomos fazendo as coisas do nosso jeito, sempre através dessa sintonia. Criamos uma cerimônia de casamento, que virava uma festa, que as pessoas nunca se esquecem. Criamos um lar e uma família.

Mas eu ainda não conseguia pagar as contas fazendo o meu trabalho.

Ela estava com a barriga imensa e o berço tinha chegado uns dias. Saiu para resolver umas coisas e me disse que quando chegasse me ajudaria a montar o berço dele. Quando ela fechou a porta eu rasguei a caixa e comecei a montar a coisa toda. Parafuso após parafuso eu fui materializando o espaço daquele futuro hóspede. Quando o berço estava de pé eu tinha me dado conta que era pai.

Claudia chegou e me encontrou chorando, emotivo. O berço tinha me arrebentado por dentro, assim como faria a frase do Garcia Marquez que eu li em algum lugar que dizia algo como “o menino pega o dedo de seu pai e daquele momento em diante o tem cativo para sempre”.

Ele saiu aqui na minha sala e eu vi seu primeiro olhar, indagativo em relação ao mundo. Não chorava. Quem chorava era eu. Cortei seu cordão e o peguei no colo. Não era meu, era ele, assim como se dava com a Claudia.

Algo mudou em mim por dentro. As dúvidas não diminuíram, mas eu resolvi tomar atitude frente à vida. A vida agora não era só minha. Eu tinha entendido que estamos aqui uns pelos outros.

Método de trabalho para Jogos Teatrais

O trabalho realizado com as turmas de ambos os períodos é exatamente o mesmo, com resultados distintos em função das distinções entre os grupos. De uma maneira genérica, a turma matutina é mais tranqüila e mais madura que a do período vespertino, mas isso não implicou numa diferença de apreensão do conteúdo.

Desde o ano passado, costumamos dividir o curso de Jogos em dois periodos: as quatro primeira aulas são destinadas a trazer a teatralidade a partir da experiência cotidiana, com jogos mais simples de exposição e trabalho com a imagem de si (a imagem que cada pessoa acredita que os outros vêem dela); as quatro últimas são destinadas a uma introdução à linguagem teatral, às noções de comunicação clara e expressividade. Chamamos o primeiro bloco de “O teatro no mundo” e o segundo de “O mundo do teatro”.

Além dessa abordagem introdutória, buscamos uma melhor compreensão de cada aluno e de suas dificuldades em relacionar-se com o conjunto. Isso porque os trabalhos são sempre em grupo e as atitudes de cada um em relação ao coletivo vão ficando cada vez mais evidentes.

Por isso, em cada trabalho, além dos comentários sobre a execução da proposta e as dificuldades em cada um deles, também comentávamos sobre as posturas de relacionamento em grupo, tratando de questões como engajamento, comprometimento, responsabilidade e trabalho em equipe.

Iniciamos a segunda etapa do trabalho com a noção de conflito, como algo que é a expressão da diversidade. Isso nos ajudou a elucidar posicionamentos nos grupos que favoreciam ou impediam a execução de um projeto comum. Falamos sobre como a falta de comunicação direta gera o acúmulo de tensões que acabam sendo descarregadas num momento de conflito. Por isso associamos conflito à violência. No entanto, isso não precisa acontecer desta maneira.

Como na segunda etapa muitos dos exercícios consistem na criação e apresentação de uma cena de um pequeno grupo para o grupo maior da sala, e a matéria do trabalho era o conflito, ficava mais fácil revelar estes posicionamentos na feitura do trabalho e depois na apresentação do mesmo. Problemas de relacionamento, autoritarismo, passividade, omissão e outras dificuldades de grupo ficam muito evidentes quando as cenas são apresentadas.

Evidentemente a metodologia conta com um outro aparato, mais simples, no entanto de grande valia: nos primeiros encontros, nas rodas de apresentação, sempre pedimos que os alunos digam seu nome, de onde vêm, o que pretendem fazer. Isso pouco a pouco nos ajuda a saber quem é quem, pelo nome. E nos impede de tratá-los como uma massa disforme de intenções confusas. Esse olhar nos possibilita compreender melhor as dificuldades individuais e nos habilita a colocar cada um em situação de superar as suas limitações.

Na nossa compreensão, disciplina não significa controle comportamental. Significa posicionamento claro frente ao grupo e comunicação aberta e não-violenta sobre todo e qualquer problema. Significa consenso nas prioridades.

Sobre direção

Eu fico pensando em como criar esse espaço necessário para que o ator se divirta com aquilo que está fazendo. Em limar todas as coisas que vão impedindo que ele chegue neste estado, quer estas coisas estejam fora do ator (se for possível), quer estejam dentro dele(se for possível).

Chego no ensaio e olho para as figuras ali na minha frente e fico matutando como vai ser o nosso trabalho de escavação e desnudamento.

Tem uns diretores que acham que humilhar o elenco vai fazer com que eles obedeçam. E que obediência é a única maneira de extrair algo do ator… Não é o meu caso.

Minha abordagem é: “vamos brincar disso agora?”

Dona Neide é a mulher do Capeta!

Tá sendo muito bacana a repercussão do Websódio “O que que é isso?”, trabalho que fiz com o pessoal da O2 para a Locaweb.
Essa semana fui para o ensaio da segunda temporada e tive um retorno do Rodrigo Meirelles sobre as estatísticas de acesso e outras coisas. A galera tem me dado um retorno muito legal sobre o meu trabalho como o Cabeça no seriado. No Youtube, a maioria dos comentários das pessoas tem sido as pérolas do Cabeça.

A gente foi muito bem “briefado” nesse trampo. O roteiro do Thiago Dottori, Nina Crintsz e Adriana Falcão (A grande família) já é duca! Mas o briefing que o pessoal passou para gente dá muito material para a gente improvisar e aí, meu amigo, é só falar merda e esperar para ver o que acontece. O paraíso para um comediante. Daí brotam coisas como “Dona Neide é a mulher do Capeta!” e outros bichos que devem aparecer até o oitavo episódio da primeira temporada.

Ontem eu fui na LOUD, que é a produtora de audio que fez o seriado. Eu e o Felipe fizemos umas gravações que vão ser usadas na segunda temporada, num episódio em que o Cabeça se dá bem. A gente passou a tarde rachando o bico. Ser comediante é bom demais!!! É tudo o que eu mais amo nessa vida.

Amanhã a gente começa a gravar a segunda. Na primeira temporada eu fiquei tão surpreso de ter sido chamado para fazer (isso porque é o meu primeiro trabalho numa produtora grande) que nem consegui escrever nada a respeito aqui no Blog. Vamos ver se rola escrever algo na segunda e publicar alguma coisa de making-off (se bem que isso deve ser meio top-secret).

Campo de Visão

As pessoas ficam dispostas nos lados de um território e não devem se encarar. Devem buscar o vazio que pode ser encontrado entre uma pessoa e outra e nessa situação é preciso se manter pronto, à espera de algo. Esse é o ponto zero, aquele em que se está preparado para entrar em cena.

Há uma regra: em um momento será escolhido aquele que irá liderar o grupo num curto espaço de tempo. Todos os outros devem se colocar na mesma direção do lider e acompanhar todos os movimentos por ele propostos sem que se olhe diretamente para ele. É preciso que o líder esteja nessa área chamada “campo de visão”. O movimento só será iniciado quando houver outro movimento no campo de visão. Enquanto não vemos nada, não nos movemos.

Então voltemos ao ponto zero. Ali ficamos, aguardando, com toda a energia preparada para ser empregada. Não é um estado de descanso, de descaso. Num sinal devemos nos mover, fazendo a escolha de apenas um gesto expressivo. Este deve estar imbuído do estado poético, daquele em que imagina lugares possíveis e outros sentires.

Dali se pode evoluir para outras escolhas, sempre dialogando com outros estímulos, ora fornecidos pela música ambiente, ora oferecidos pelos parceiros de jogo, ou por aquele que orienta o jogo.

Então se escolhe o líder.

Liderando, me ocupa que todos estejam participando. Meu movimento não pode ser mais tão ensimesmado. Há uma preocupação em que os outros entendam o que eu proponho, para que o fluxo do jogo não seja interrompido. Se pode brincar com essa responsabilidade, mas não se pode negá-la, sob a pena de não liderar ninguém, porque ninguém compreeende o que se deve fazer.

Liderado devo assimilar o que está sendo proposto e tornar aquilo meu. Acompanho o outro porque aquele movimento proposto me permite ampliar o meu repertório corporal. Acompanho porque me sinto integrado ao todo, ainda sendo eu mesmo.

Investimento de risco

Estamos a duas semanas do final da temporada e constatamos um rombo de três mil reais no caixa da companhia. Temos uma média de espectadores bastante satisfatória, uma temporada relativamente longa, não precisamos pagar nada ao CCSP… Mas mesmo assim, ainda fizemos um investimento bem alto para o nosso espetáculo.
Isso sem contar que a gente não recebe um centavo como atores e atriz da peça. E o Léo abriu mão da porcentagem dele como dramaturgo.
Se eu já não estivesse sofrendo ameaças da Telefonica, da NET e da Eletropaulo certamente teria abrido mão dos meus tostões pela criação do cenário, mas não pude. Tive que pedir um empréstimo para a família e ainda continuo sem arranjar nenhum fixo, de maneira que esses cobres me fariam falta.

Léozão me liga agora a tarde encanado com a grana que o Vitão pedia para levar os projetos da peça pessoalmente em SESCs do interior. Fora os três contos que já devemos, ele ainda precisava de quase seis. Seria supimpa se tivéssemos isso. Também acho que levar o projeto nas mãos das pessoas implica numa relação diferente da que a gente estabelece à distância, mas o fato é que não temos mais nenhum centavo. Léo e Gui já falam em colocar mais uns cobres para pagar a impressão do projeto, que mandaremos via web ou sedex mesmo, porque não temos mais nenhum centavo para gastar com aluguel de carro, combustível e pedágio.

Nessas horas é importante não ter o outro como adversário. Porque é aí que a coisa desanda. Eu tinha conversado com o Vitão e tinha ouvido o porquê ele considerava essa estratégia de levar pessoalmente os books da peça como uma coisa boa. Também tinha ouvido a Glau, que até agora não recebeu nenhum tostão, nem por “Escombros” nem por “O rei dos urubus”. Ouvia o Léo com a mesma fé de sempre no projeto e o Gui fazendo as contas do quanto ainda faltava pagar e para quem… A gente discute e cada um apresenta a sua questão, mas a questão é saber que o outro está do seu lado e não contra você. Isso é a diferença entre uma Companhia de Teatro e um aglomerado de pessoas fazendo uma peça.

Ainda tenho fé nesses caras e nessa mina! Estamos na merda, como sempre, mas eu ainda acredito no trabalho dessa gente. Na qualidade do que fazemos. Nesse e em todos os espetáculos que a gente fez e que a gente possa um dia vir a fazer. Agora eu não tenho nenhum puto para colocar nessa produção, mas se tudo correr bem, em maio terei uma grana legal e aí quem paga o Vitor sou eu.

Três mil de cu é rola! Foda-se! Vamos fazer essas peças!

A gente ainda está aprendendo o que é ser Companhia, e estamos vendo o quanto vale pagar por essa lição. Todos esperamos pagar nossas contas com esse trabalho que nos traz tanta alegria. Todos esperamos reconhecimento pelos nossos trabalhos. A questão é ver o quanto se pode investir e se isso é necessário. Em dinheiro, tempo, esforço e alegria.

Reconhecimento

Uma vez a gente estava conversando num ensaio sobre esse motor do ser humano, o de ser reconhecido por outros. Falamos da importância de se reconhecer as virtudes e as competências de cada um e isso ajudou a dissolver algumas tensões.

Papo bacana com o Lazzaratto.

Ontem um amigo que assistiu à peça me disse que meu trabalho traz em cena muita humanidade. Nos dois personagens. Porra!

É simplesmente o lugar em que eu busco chegar com o que estou fazendo. Foi o melhor reconhecimento que eu já tive na minha carreira.

Obrigado, cara.