Inspirado em Cortázar

A Casa Tomada

inspirado no conto homônimo de Julio Cortázar

por Djair Guilherme

Relação dos Personagens

  1. TIO ALBERTO (Tio-avô de Julio e Irene)
  2. JORGE (marido de AmÁlia)
  3. AMÁLIA (Sobrinha de Alberto)
  4. Julio
  5. Irene
  6. Carmen (Prima de amÁLIA e ROBERTO)
  7. Roberto (Primo de amÁlia e Carmen)
  8. Pai (de julio e irene)
  9. Mãe (de julio e irene e sobrinha de tio Alberto)
  10. Empregada
  11. SEGUNDA EMPREGADA

Jardim

A casa está sendo preparada para uma festa. Julio e Irene brincam no jardim da casa, como crianças. Funcionários entram e saem da casa, nos preparativos. No andar superior, na sacada, os pais se revezam. O pai aparece na sacada, ajeitando a gravata. Depois surge a mãe, penteando-se.   Surge um casal, junto ao público vestido em trajes finos. Jorge e Amália. Julio e Irene discutem e Irene sai correndo. O tio se dirige ao público.

Tio Alberto

(Bebendo vinho) Não sei se vocês já sentiram isso. Você se distrai numa conversa, por exemplo, e sente vontade de tomar água. Felizmente, ali perto, tem um copo que você acredita que está cheio. Você então o levanta e subitamente percebe o copo mais leve do que deveria. (Enche o copo novamente) Quando eu era criança, foi assim que eu senti a morte. Um parente nosso adoeceu de repente e a morte o rondou durante anos, mas a doença não o vencia de forma alguma. (Bebe) Um dia nós fomos visitá-lo e eu pedi-lhe as bençãos, como era o costume da época. (Olhando a taça) Apertei-lhe a mão e naquele momento, senti que o peso dele não estava lá.
Detalhes »

Sarampo

Hoje, no trem, eu fui encontrado por um sujeito com deficiência nas duas pernas, motivada, segundo ele, por um sarampo.

Ele começou pedindo a todos que vacinassem as suas crianças amanhã e prosseguiu o seu discurso, extremamente bem articulado, falando dos remédios e das dores, o de sempre, mas de forma tão coesa e tão convincente que a recepção foi geral. Muita gente lhe deu dinheiro!

Ao receber as moedas ele incentivava o passageiro: “Isso, minha tia! Muito obrigado!”

Encerrou seu discurso com uma reafirmação de sua preocupação com a vacina e saiu do vagão deixando todos satisfeitos!

Genial!

O Humor

Ontem eu presenciei um fato que me fez pensar na importância do humor frente aos fatos. Estava particularmente reflexivo, atormentado por intensos conflitos filosóficos enquanto lia um livro do Dalai Lama. Pensava na minha vida, nos rumos que ela tomou, em quais tem sido as minhas verdadeiras prioridades… Enfim, eu era um pouco Hamlet.

Enquanto isso, ao meu lado, estavam quatro seguranças patrimoniais, numa brincadeira de disputa e tiração de sarro. Cada hora um simulava ser o chefe do outro e lhe dava uma ordem sempre absurda e ofensiva. E eles prosseguiam nesse jogo, alheios a toda hierarquia, todo protocolo, toda burocracia da função. Brincavam como crianças, usando ternos de adultos. O jogo culminou com um lance em que um dos seguranças molhou o outro com um borrifador de água. O outro, por sua vez, tomou o borrifador, abriu a tampa e jogou a água em grande quantidade no primeiro. Se ofenderam mutuamente e, para não brigarem, terminaram o jogo.

Em algum momento as duas cenas se tocaram, a minha e a dos seguranças, do contrário este texto não teria sido escrito. As interferências mútuas, no entanto, poderiam não ter se limitado às nossas observações. Nesse jogo me cabia o papel de espectador, mas e se o jogo se dirigisse a mim? E se eu, o aristocrata da situação, me visse envolvido naquela disputa de alguma maneira? Se aquilo me dissesse respeito? Se aquele entretenimento sem função pudesse alterar profundamente o rumo da história em que sou protagonista? Não teríamos, neste caso, “uma cena dos coveiros” de Hamlet? Ou um dos episódios em que Trínculo, Estéfano e Caliban tramam contra Próspero?

Por entendermos que há algo de muito importante em jogo é que essas cenas são indispensáveis. A qualquer momento, apesar de toda pompa, de toda magnificência e de toda filosofia, três idiotas podem assassinar Próspero. Essa cena acrescenta humor e a sensação de perigo banal, diferente da conspiração tramada por Antônio e os nobres, que fica no plano das idéias.

Coração Partido

Roda no Micael

Quando a gente é criança, ama tanto alguém, em tamanho silêncio, que até dói. Eu tinha me esquecido dessa dor de estar apaixonado e não ser correspondido. Essa dor de criança. Fui dispensado do Micael no sábado e estou com o coração partido desde então, como se o amor da minha vida tivesse me deixado.

Nada que eu tenha escutado, nada que eu pense, nada além do tempo parecem curar essa dor no peito. Essa dificuldade em seguir vivendo do mesmo jeito.
Nem mesmo estar no palco aliviou esse sentir. Nem mesmo o amor da minha família, tão especial. Nada.
Estou de aviso prévio, até dezembro, mas já não estarei com eles. Nem sei com que coração eu vou até lá assinar a papelada toda da minha demissão nessa semana.
Agora mesmo eu só penso que isso pode ter acontecido para que eu entenda de uma vez o que eu sei fazer com o teatro.

O silêncio

Trabalhei como um camelo para que as coisas saissem bem. Não desliguei do assunto um só momento, pensando em cada um deles, no melhor que eu poderia dizer ou fazer para que eles conseguissem se divertir com a busca. Me ancorei no senso de humor, que me permite dizer coisas duras com a leveza necessária para que elas sejam ouvidas. Estreamos e tudo correu bem.

Há um certo milagre no teatro, que a gente que vive disso conhece: as coisas se ordenam na última hora, porque o espectador exerce um poder misterioso sobre o ator que o ajuda a superar as suas limitações e a se entregar plenamente na experiência.
Mas alguma coisa não saiu bem.
Quatro dias depois do término, tive um encontro com minhas parceiras de trabalho para avaliar o processo e ouvi delas que eu fui negligente, descuidado com o ritmo, desleixado com as minhas funções, que haviam feito o que eu deveria ter feito e que por isso se sobrecarregaram. Que de minha parte faltava abrir a comunicação, que na última hora eu faltei, que não agüentei o processo e por isso fiquei doente, que não fui recíproco, que fui duro demais, que me isolei. Que a peça tinha acontecido bem por milagre.
Eu ouvi tudo isso e sentia que havia verdade nisso. Mas alguma coisa me soava falso.
Que milagre foi esse que fez essa peça acontecer, apesar de um diretor tão ausente?
Milagre é o sujeito nunca ter dirigido uma ópera, ter inclusive resistência a musicais, não entender nada de música e ainda assim, fazer com que um grupo de atores tenha segurança para seguir fazendo a peça até que as coisas vão se ordenando. Aqueles atores entendem muito mais de música do que eu e se eu conseguisse deixá-los seguros no palco, o jogo deles com a música ia dar um jeito de a cena acontecer, mesmo que eu ainda não enxergasse como. Porque é nos atores que mora o teatro.
Milagre é o sujeito se ver diante de um elenco de 29 pessoas com quatorze anos e achar um acordo de grupo em que os 25 atores que estão fora de cena respeitem os outros quatro que estão no palco, ficando em silêncio, cantando, preparando as coisas para as próximas cenas. Milagre é ver um ator que mal conversava comigo ter segurança para expôr uma idéia e vê-la incorporada na peça. Também é um milagre que os outros professores me procurem na sala de ensaios e não me encontrem, embora eu esteja na roda, bem diante deles.
O milagre mesmo é a roda e essa capacidade de nos horizontalizar.
Aquelas pessoas todas, atores, pais, parceiros, músicos, professora… todos eles sabiam mais do teatro que queriam ver do que eu. Se houve um milagre, foi ajuda-los a enxergar isso.
Talvez eles tenham esperado que eu mandasse mais.
Mas eu não quero fazer assim.
Teu jeito é melhor para você do que o meu jeito.

Guardas! Um diálogo kafkiano…

Um homem caminha até chegar a um portão. Do lado da entrada, um guarda.

Guarda

Aqui não pode passar.

Homem

Porque não?

Guarda

Não importa. Não pode. Isso basta.

Homem

Mas preciso passar. Tenho assuntos a resolver.

Guarda

Resolva seus assuntos sem passar.

Homem

Meus assuntos dependem de que eu passe.

Guarda

Então não os resolva.

Homem

(Pausa longa) Por favor, amigo. Preciso realmente passar. Se desejar, posso lhe explicar o que vou fazer do outro lado.

Guarda

Desculpe, amigo, mas a mim não interessam os seus assuntos. A mim cabe apenas impedir a passagem de quem quer que seja.

Homem

(Irritado) Escute, amigo, vou passar com ou sem a sua autorização, compreende?

Guarda

Isso já foi previsto. Pois saiba que depois de mim há um outro guarda ainda maior e mais forte. Você pode passar por mim, mas não será possível passar pelo outro.

Homem

Não importa. Vou passar.

O Homem ameaça e percebe que o guarda não vai impedi-lo. Por fim, passa realmente e caminha um pouco. Encontra mais adiante um outro portão e um guarda mirrado, muito pequeno e fraco.

Homem

Quem é você?

Segundo guarda

Quem faz as perguntas aqui sou eu, meu caro.

Homem

Escute, eu não tenho tempo para conversar com você. Tenho assuntos muito urgentes a resolver do outro lado e…

Segundo guarda

Que desacato é esse? Gostaria de ser preso?

Homem

Você é outro guarda?

Segundo guarda

Como assim: “outro guarda”?

Homem

Sim, porque há pouco acabei de passar por um guarda…

Segundo guarda

Há outro guarda?

Homem

Claro que sim, ali, antes…

Segundo guarda

Não minta, farsante!

Homem

Não estou mentindo, senhor. Há um outro guarda ali atrás, que inclusive me preveniu de que o senhor estaria aqui. Ele me disse, no entanto, que o senhor seria um guarda maior e mais forte.

Segundo guarda

Mas eu sou o maior guarda aqui.

Homem

Aqui sim. Mas entre aqui e lá, o senhor fica muito menor, se me permite a franqueza.

Segundo guarda

O quê?

Homem

Sim. E digo que o outro guarda é um mentiroso.

Segundo guarda

O quê?

Homem

Sim.

Segundo guarda

Me acompanhe, por favor.

Homem

Por quê?

Segundo guarda

Vamos, me acompanhe.

Os dois rumam em direção ao portão onde se encontra o primeiro guarda

Guarda

Alto lá!

Segundo guarda

Quem é você?

Guarda

Quem faz as perguntas aqui sou eu, meu caro!

Segundo guarda

Escute, eu não tenho muito tempo para conversar com você. Esse sujeito aqui está fazendo acusações muito graves e preciso…

Guarda

(Para o homem) Você outra vez?

Homem

Você me disse que o segundo guarda seria muito maior e mais forte que você.

Guarda

Sim.

Homem

Mas esse é o segundo guarda!

Guarda

(Para o segundo guarda) Farsante! Você não é o segundo guarda!

Segundo guarda

Claro que não sou! Supostamente eu seria o primeiro.

Guarda

Primeiro? (Zombando) Ha ha ha. O primeiro guarda sou eu, amigo!

Homem

Mas você é menor que ele.

Guarda

Ninguém pediu a sua opinião. (Coloca-se ao lado do segundo guarda e percebe que realmente é menor que ele)

Segundo guarda

O que será que está acontecendo por aqui?

Guarda

Muito estranha esta situação. O senhor não estava informado da minha presença?

Segundo guarda

Não. Na verdade, sei apenas que há um próximo guarda, maior e mais forte do que eu.

Guarda e homem

Outro guarda?

Segundo guarda

Sim. Mais um.

Homem

Isso é demais!

Guarda e segundo guarda

Ninguém pediu a sua opinião!

Segundo Guarda

(Ao primeiro guarda) Se quiser, poderíamos ir ao próximo portão ver o próximo guarda.

Guarda

Como assim?

Segundo guarda

Vamos verificar se há um terceiro guarda.

Guarda

E quem fica guardando o portão?

Segundo guarda

Ninguém, por hora…

Guarda

(Em dúvida) Hmmm…

Segundo Guarda

Vamos?

Guarda

(Para o Homem) Nos acompanhe!

Os três se dirigem ao próximo portão, onde encontram um terceiro guarda. Maior que o segundo, mas menor que o primeiro.

Terceiro Guarda

Alto lá!

Guarda

Você é o terceiro guarda!

Terceiro Guarda

Você me conhece?

Guarda e Segundo Guarda

Quem faz as perguntas aqui sou eu, meu caro.

Guarda

Eu!

Segundo Guarda

Eu!

Terceiro guarda

Na verdade, aqui neste portão sou eu.

Homem

Desculpe, senhor, eu nada tenho com essa questão. Sou apenas um sujeito que tem assuntos urgentes a resolver…

Terceiro guarda

E esse, quem é?

Guarda

A causa de todo o mal-entendido.

Segundo guarda

(Apontando para o Guarda) Você sabia que havia um guarda antes de mim?

Terceiro guarda

Sabia.

Homem

Senhor, eu só gostaria de passar…

Segundo Guarda

Cale a boca!

Guarda

E quem é o primeiro guarda? Eu ou ele?

Terceiro Guarda

(Aponta para o Segundo) Ele. Não é?

Segundo guarda

Não.

Terceiro Guarda

Não?

Guarda

Não.

Terceiro Guarda

Estranho.

Homem

Estranho demais…

Guardas

Ninguém pediu a sua opinião!

Terceiro guarda

Os senhores aguardem aqui. Terei que verificar com o próximo guarda.

Guarda

Outro guarda?

Segundo guarda

E quantos serão?

Homem

Por hora quatro.

Terceiro guarda

(Para o Homem) Que incoveniente!

Segundo guarda

(Para o Homem) Porque você não esquece disso tudo e simplesmente volta outra hora?

Guarda

Isso.

Homem

Outra hora, outra hora… Eu tenho assuntos URGENTES a resolver!

Guarda

Não me importam os seus assuntos. Você não pode passar.

Terceiro guarda

Aqui quem decide isso sou eu!

Segundo guarda

Claro. Claro.

Guarda

Perdão.

Terceiro Guarda

Não por isso.

Homem

Posso passar?

Terceiro guarda

Não.

Guarda

Eu disse.

Os outros (incluindo o homem)

Ninguém pediu a sua opinião.

Guarda

Claro.

Homem

Eu vou passar de qualquer modo.

Terceiro guarda

Passe! Passe! O quarto guarda… O quarto guarda… Esse sim, é terrível!

Guarda

E há outros, viu!

Segundo guarda

Outros?

Guarda e Terceiro guarda

(Combinados, como que fingindo) Há sim! Muitos outros. Milhares!

Homem

Não me importa. Vou passar! (E sai)

Terceiro guarda

(Pausa constrangedora) Quem é o primeiro guarda?

Guarda

Sou eu.

Terceiro Guarda

É por estas razões que não devemos deixar as pessoas passarem, entende?

Guarda

Mas ele… mas ele…

Segundo guarda

Que vergonha…

Terceiro Guarda

Você não tem nada que reclamar, uma vez que o sujeito também passou pelo seu portão.

Guarda

(Zombando do segundo) Ha ha ha!

Terceiro guarda

As pessoas fazem perguntas demais. Nosso trabalho é simples: não deixar as pessoas passarem. Só isso.

Segundo guarda

Só isso?

Guarda

Só.

Segundo Guarda

E onde está o sujeito?

Terceiro guarda

(Silêncio)

Guarda

(Em desespero) Ele passou?

Segundo Guarda

Passou. Agora mesmo.

Guarda

E o que fazemos?

Terceiro guarda

Ele vai encontrar o quarto guarda e desistira.

Guarda

Mas existe um quarto guarda?

Terceiro guarda

Acho que sim.

Segundo guarda

(Imitando) Acho que sim… acho que sim…

Terceiro guarda

Que desacato é esse? Gostaria de ser preso?

Guarda

Eu gostaria de ver o quarto guarda.

Segundo e Terceiro guarda

Não pode passar!

guarda

Vocês não ficam curiosos?

Segundo e Terceiro guarda

Não.

Guarda

Quero dizer, há pouco eu era o único guarda e achava que havia outro maior depois de mim. E a coisa acabava aí.

Segundo guarda

Eu não faço muitas perguntas. Acho que é o melhor a se fazer.

Terceiro Guarda

Concordo. Voltem aos seus postos!

Segundo guarda

(Batendo continência) Sim, senhor!

Guarda

Até a próxima vez!

Segundo guarda

Não haverá próxima vez. Você veio longe demais!

Terceiro guarda

(Para o segundo guarda) E você também. Vão agora!

Guarda

(Batendo continência) Sim, senhor!

O Guarda e o Segundo Guarda saem. Entra o homem, em sentido oposto.

Terceiro guarda

Aqui não pode passar!

E recomeça a cena, em espelho. O terceiro guarda passa a dizer as falas do primeiro e vice versa.

Fim

Smithfield!!!

Ontem à noite eu vi o pânico em Porto Alegre. Cinco pessoas já morreram desde o início da epidemia de gripe. As missas estão proibidas. Assim como o cinema. Ninguém falou nada sobre o teatro, talvez por falta de público. O ponto é que os agrupamentos humanos podem ser letais nesse tipo de caso.

Os apresentadores do Jornal Nacional me tranquilizaram ao dizer que o governo terá vacina contra a gripe no próximo ano e que por hora já tem preparadas as matérias primas para a confecção de nove milhões de doses de Tamiflu, medicamento usado nos casos graves da gripe e que é fabricado pela Roche. Cada caixa, com dez comprimidos, custa cento e sessenta reais. É realmente uma maravilha que o governo brasileiro esteja distribuindo isso gratuitamente nos hospitais públicos.

No entanto, o governo alerta contra a automedicação, dizendo que a superdosagem de Tamiflu gerar no vírus uma resistência ao medicamento. Tamiflu só deve ser usado em casos graves e no geral, a gripe deve ser tratada como uma gripe comum, reforçando as defesas do organismo do doente para que ele se cure.

Também foi importante a informação de que as máscaras devem ser usadas pelas pessoas doentes e não pelos saudáveis, porque o pânico de contrair a gripe estava fazendo com que as pessoas comprassem máscaras desesperadamente e isso estava acabando com os estoques. Na Argentina, a demanda por máscaras cirúrgicas aumentou 800% só na cidade de Buenos Aires. Em São Gabriel, no Rio Grande do Sul, o estoque das máscaras acabou em três dias.

Smithfield!!! (como se fosse um espirro) Desculpem… Um espirro agora é o suficiente para uma polêmica.

Mudei para outra emissora e em cinco minutos de telejornal testemunhei oito mortes, pelos mais variados motivos. Balas perdidas, atropelamentos por motoristas bêbados, suicídios, desentendimentos familiares, velhice. Em cinco minutos!

Na Argentina, 17 mortos, desde 24 de abril. Em Porto Alegre, 5 mortos. No México, epicentro da questão, 23 mortos. Em todo o planeta, com seus seis bilhões de habitantes, a pandemia já vitimizou mais de 500 pessoas.

Os governos de todo o mundo alertam que os mais suscetíveis à gripe são os idosos, crianças e mulheres grávidas. Também recomendam que não se viaje à Argentina ou ao México. Lavar as mãos freqüentemente com água e sabão, evitar tocar olhos, boca e nariz após o contato com superfícies, não compartilhar objetos de uso pessoal, cobrir a boca quando tossir ou espirrar, são conselhos úteis e revelam boa educação.

Quando a novela começou eu estava me perguntando de onde veio isso tudo. Será um indicador do final dos tempos, como as pragas do antigo Egito ou as profecias de Nostradamus? Quinhentas pessoas, em todo o mundo, em três meses de doença? Onde iremos parar?

Uma gripe, que surge do nada, no meio dos porcos e que passa a atacar seres humanos, levando-os à morte. Uma praga enviada para nos punir.

A gripe se chamaria Mexicana, porque a origem tinha sido do México, e também para contrastar com a Espanhola. Os mexicanos chiaram, dizendo que o turismo ia cair. Depois se chamou suína, porque vinha dos porcos. Os criadores de porcos reclamaram sobre a queda dos preços da carne. De forma que recorreram aos cientistas que chamaram a gripe de Influenza A (H1N1), nome dado ao vírus.

Influenza A (H1N1). De onde veio isso?

A cidade de La Gloria, próxima de Oaxaca no México foi o foco inicial da gripe. Duas crianças morreram da gripe. Edgar Hernandez, um menino de quatro anos, é tido como o caso inicial da gripe que ameaça o mundo. O senhor Joseph Luter Terceiro diz que é uma infeliz coincidência que dois de seus criadouros industriais de porcos fiquem em cidades vizinhas de La Gloria: Xaltepec e Perrote.

O gerente da Smithfield em Xaltepec, Sr. Vitor Ochoa, disse que os quinze mil animais são vacinados regularmente; que a fábrica atende aos mais altos requisitos de higiene e saúde e ainda, que a piscina com a merda dos porcos, resíduo gerado pela fábrica, é fechada hermeticamente, para evitar contato com o ar. Os porcos de Xaltepec são tratados como reis! A eles, basta comer, crescer e virar presunto.

Por outro lado, um em cada seis, dos três mil habitantes de La Gloria relataram problemas de saúde. Também mencionam que suas casas estão sempre repletas de moscas e que isso poderia ser a causa de tantos problemas. O governo mexicano inicialmente achou que o surto de La Gloria era de uma gripe convencional, mas quando as coisas se complicaram, a primeira providência foi aplicar inseticidas para combater as moscas.

A Smithfield costuma ter alguns problemas com a higiene. Onde quer que haja uma fábrica da Smithfield no mundo, existem ativistas ambientais realizando protestos contra as suas práticas. Moscas, cheiro de merda ou carniça e porcos roídos por vermes são algumas das queixas mais comuns dos afortunados vizinhos de seus criadouros. Em 1997, pagou ao governo Norte Americano uma multa de US$ 12 milhões por violar uma lei sobre a limpeza da água. Em 2007 foi acusada por moradores do Missouri de violar a ordem pública. No mesmo ano, gastou US$ 13 milhões para conter um surto de gripe suína na Romênia.

Quando a Smithfield procura um lugar para abrigar uma de suas fazendas, verifica a flexibilidade das leis locais, o custo dos oficiais de justiça, a docilidade da população e a abundância de água. Segundo o Sr. Joseph Luter Terceiro, de sessenta e sete anos, sua empresa está sempre aperfeiçoando seus criadouros de porcos e os ambientalistas são apenas gente neurótica com um funesto plano de tornar toda a gente vegetariana.

Ok. Eu avancei demais o sinal.

Os funcionários da Smithfield estão apenas fazendo o seu trabalho e o Sr. Joseph Luter Terceiro é apenas um sujeito bem sucedido no seu ramo de negócio.

Vocês podem estar imaginando que eu estou sugerindo que essa fábrica seja fechada, que seu dono e os acionistas sejam indiciados por crimes contra a humanidade, que paguem indenizações para o tratamento contra a super-gripe em todo o planeta e que financiem a pesquisa para a vacina, distribuindo-a gratuitamente a cada pacote de carne de porco enlatada que eles vendem.

Acho melhor pararmos por aqui.

Nossa conversa está ficando cada vez menos lucrativa.

Smithfield! (como se estivesse espirrando)

Dia 7

Acordei no sétimo dia, me dando conta do tempo.

Sete dias. Uma semana. No meio do vazio.
Tudo o que eu mais queria na vida.
Me livrar da companhia de qualquer outra coisa. Saber o que eu era, pela exclusão das demais coisas.
No deserto, o que não era o nada era o eu.
Calculava eu, matematicamente.
Sete dias e ontem a fome começou a ser mais uma companhia insuportável, como tinham sido o sol, a areia, o cacto…
O cacto.
Sempre o maldito cacto e sua inocência.
O cacto morto, que me assombrava a consciência. Desde o cacto eu tinha me tornado mais agradável às minhas companhias imprevistas.
Quantos dias eu vou ficar aqui?
Perguntei-me, de repente como que para afastar da cabeça a imagem do cacto.
Quanto tempo eu vou agüentar?
Parecia ser a real pergunta.
Como se a morte do cacto trouxesse a mensagem da minha própria duração.
Como se a fome e o vazio estivessem cavando a minha sepultura.

Um deserto – dia 6

O sexto dia surgiu no meio da minha retirada estratégica, me pegando de surpresa.

Vai assustar a puta que te pariu! Disse eu, desconfiado deste novo dia, assim como estivera de todos os demais.
Continuei andando, ignorando a existência do dia, fingindo que ele e a noite eram para mim a mesma coisa.
Dia, noite, sol e lua… Fodam-se! Para mim vocês são todos os mesmos. E andava e andava, tentando em vão deixar para trás as indesejáveis companhias.
Por fim, cansei-me uma vez mais.
A barriga vazia. A boca seca.
A pergunta de “onde eu estava”, se fazendo cada vez mais presente.
No sexto dia eu me tornava contemplativo, através da fome. Queria subitamente compreender o deserto em todos os seus detalhes. Saber onde aquela massa de areia e sol escondia qualquer coisa.
Tinha vindo ao deserto porque queria o vazio.
Agora que eu tinha o vazio dentro de mim, buscava alguma coisa.
Foda-se, eu me viro! Disse eu, com a última gota de orgulho levando mais um dia para evaporar.
Qualquer ponto do deserto era a mesma coisa.
Faminto, as direções começam a ficar mais calculadas.
Sem rumo, encerrei o meu sexto dia.

Pequeno currículo das essências

Teatro nasceu tarde. depois de uma enxaqueca.

Desde os doze anos elas me tomavam de assalto, sem razão aparente, e me obscureciam o campo de visão. Estreitavam, tornavam turvo. Estômago embrulhado, intestino fermentando, topo da cabeça doendo, cegueira parcial. Deitava na cama, com a cabeça doendo e ficava o dia inteiro no escuro. Minha mãe fazendo compressa com pano embebido em álcool. Daí passava sozinha.

Eu ficava meses sem ter nada disso, mas quando ela estava se aproximando eu sabia. Já me preparava para o baque. O enjôo vinha primeiro e depois um pontinho luminoso na frente dos olhos, que ia aumentando para fora, seguindo o raio do olho. A dor de cabeça vinha no final de tudo.

Naquele tempo eu já falava muito em fé, porque tinha sido curado da febre reumática por homeopatia, um monte de bolinhas brancas e doces e um médico engraçado e muito grande. Não tinha sido uma cirurgia, ou injeção, ou comprimido. Doce. E bons conselhos e fé na cura. E eu estava vivo.

Mais tarde eu fiz eletrônica, porque já sabia como comandar um computador mas não entendia como ele funcionava por dentro. Gostava de saber disso, de como as coisas funcionam por dentro, talvez para entender como eu mesmo funcionava por dentro. Me meti a aprender isso e logo as enxaquecas recomeçaram mais fortes. O tempo entre elas diminuía. Mas a dor de cabeça já não era tão grande. O enjôo era o pior.

Eu olhava em volta e parecia estar fazendo tudo certo, quero dizer, tinha estudado, passado num mini vestibular, o curso era gratuito e eu tinha sérias possibilidades de estar empregado no final. Mas eu desenhava e desenhava. Terminava de fazer as infinitas contas, os senos e os cossenos, as matrizes, os xis… E desenhava. Desenhava no meio das contas, no final do caderno, na mesa, na capa dos livros.

Ela passou pela minha mesa e viu meu desenho. Eu tentei esconder a tempo mas não consegui. Ela que até aquele dia era só uma bunda me perguntou o que eu estava fazendo ali, no meio daquela gente. Me disse que eu era um artista e que eu podia estar em outra situação, que não precisava seguir aquela trilha. Me disse que tinha uma escola da prefeitura que dava cursos gratuitos de desenho e que eu poderia me especializar.

Segui a bunda e comecei a aprender a desenhar. Em quatro semanas eu terminei o módulo de um ano. O professor veio conversar comigo e disse que eu deveria ir para o módulo dois. Eu perguntei o que a gente ia aprender. Ele me disse que eu ia aprender a pintar. Eu fiquei pensando se eu tinha paciência para passar uma tarde pintando… Enquanto eu pensava apareceu um velho e colocou a mão no meu ombro. Achei que era meio bicha.

O velho foi falando que era professor de teatro na prefeitura e que o curso estava encerrando as inscrições naquela semana e que se a gente quisesse poderia se inscrever. Eu perguntei se era de graça e ele disse que sim. Pensei, vou falar para a Denise, que é minha irmã e ela vai querer fazer, porque já tinha me perguntado.

Sai do curso de desenho quase pensando em desistir de passar as minhas tardes pintando. Ia ter que comprar tintas e pintar cavalos durante meses. Falei a novidade para a Denise e ela me chamou para ir junto com ela na aula de teatro. Falei, vou, mas não vou fazer, vou ficar só olhando e dando risadas. Na sexta-feira fomos nós três, eu a Denise e a Dayse e mais uns amigos da rua. Daí que eu só fiquei no teatro.

Lá eu conheci uma menina que era linda e só ganhava concurso de miss simpatia, porque estava um pouco acima do peso. Ela era muito engraçada e era tão deliciosa que eu nunca podia imaginar que a gente seria namorado durante nove meses e eu nunca conseguiria transar com ela. Logo logo por liderança minha e mediocridade da produção teatral Osasquense eu me tornei um dos bons atores da cidade. Ali eu me dei conta, tristemente, que a liderança resolveria 90% dos meus problemas e criaria 100% deles.

Descobri César Vieira no livro, e o teatro União e Olho Vivo. Também achei Boal e detestava o Stanislavski, porque achava o livro uma merda. Li o Ponto de Mutação, do Fritjoff Capra e o Yoga para Nervosos, do Hermógenes. Comecei a ter umas experiências muito estranhas quando fazia os relaxamentos. Umas compreensões estranhas e a sensação de que me independizava de meu corpo.

A gente se tocava, podia se jogar que o outro segurava. Rolávamos no chão uns por cima dos outros e conversávamos sobre qualquer coisa possível. Nos víamos quase todos os dias, ou porque resolvíamos ensaiar, ou porque queríamos nos ver. Escrevíamos cartas uns aos outros com coisas lindas, porque estávamos todos apaixonados uns pelos outros e por nós mesmos.

Fiquei tão cego pelo que descobri ali que achava que o velho não estava fazendo nada. E ainda tinha vezes que eu sentia que as pessoas poderiam ir mais longe ainda, só que ele não via. No grupo, quando a gente ensaiava sozinho, conversávamos sobre a ausência de critério do velho e dizíamos que a peça éramos nós quem estávamos fazendo, sem direção nenhuma. Daí quando ele resolveu tirar um dos atores do elenco faltando uma semana para a estréia, nós que estávamos fazendo tudo sozinhos resolvemos opinar. O velho nos pediu para escolher entre o ator ou ele e eu sugeri que nós votássemos. O velho perdeu e eu perdi tudo…

A menina linda foi embora, porque na votação ficou em cima do muro e depois ficou ao lado do velho. Me torturava com os comentários das outras pessoas sobre a minha traição e eu ficava atrás dela obssessivamente, porque tinha ficado com ela nove meses e me perguntava todos os dias o que é que ela tinha visto num sujeito como eu. Busquei o perdão de todos, mas só consegui me reconciliar com a situação cinco anos mais tarde, depois de muita análise.

Deixei o teatro de lado e fui trabalhar consertando computadores. Tinha cansado da brincadeira e estava ferido demais para continuar. Mas estava irremediavelmente tocado pelo Teatro e logo optei por fazer faculdade de artes cênicas, depois de um vestibular para engenharia perdido e outro para psicologia. Meu velho cortou a verba e eu pagava o cursinho com o salário inteiro que recebia da assistência técnica.

Naquele ano os donos do cursinho resolveram criar umas atividades para desestressar os alunos e incluíram o teatro no pacote. Eu era o único sujeito que estava fazendo cursinho para prestar artes cênicas, porque meu curso de eletrônica era tão fraco que eu não entendia nada de história, química ou biologia. Lá formamos um outro grupo, e eu estava um pouco mais distante. Não queria me apaixonar por aquelas pessoas e estava com um pouco de vergonha de ainda querer fazer teatro.

Ali aprendi Teatro do Absurdo, Ionesco, Brecht, Peter Weiss, a beber muito e a fumar maconha. Aprendi a pegar as meninas quando estava bêbado mas ainda assim não consegui trepar com ninguém, embora eu tivesse muitas oportunidades.

Entrei na USP carregando um pacote maluco: fazia teatro no cursinho, trabalhava no Bradesco e cursava 14 créditos pelas manhãs todos os dias. No fundo eu tinha medo que não desse certo fazendo teatro e que aquilo acontecesse tudo outra vez. Eu não podia me apaixonar pelas pessoas. Precisava manter uma reserva segura. A classe estava dividida em dois grupos: uma moçada recém saída dos melhores colégios e uma rapaziada mais velha, que tinha vindo de outra área. Eu olhava aquilo e pensava que a banca do vestibular estava fazendo alguma experiência macabra.

Tinha 21 anos, um coração partido, nunca tinha trepado na vida, o corpo todo torto e condicionado pela minha relação com os computadores. Resolvi ler um clássico de cada autor. Descobri Kafka, Dostoievsky, Nietszche. Descobri Reich alucinadamente. Li tudo o que podia. Comecei a fazer análise para entender de onde vinha o meu constrangimento com as mulheres. Estava num grupo de velhos ranzinzas de 30 e poucos anos e menininhas de 18 anos deliciosas que eu nunca comeria. Fazia quatro matérias por semana e me cansei disso.

Fui até a diretora da Escola do Bradesco e disse que gostaria de diminuir meu salário e trabalhar menos. Ela me disse que o Banco não tinha esse cargo. Eu disse que então eu queria que eles me demitissem. Ela me disse que se eles me demitissem eu não poderia trabalhar em nada relacionado ao Banco. Então eu pedi demissão e perdi minha indenização e FGTS, por medo de que o Teatro não desse certo e eu tivesse que voltar.

No outro ano eu me apaixonei de novo por aquela gente toda. Arthur, Glaucia, Paulina, Ana, Paula, Roberta, Nilson, Tony, André, Valtinho, Paula, Zédu, Kelly (que depois eu odiei)… Achei o Teatro de novo e mergulhei de cabeça, sem um puto no bolso. Aí eu conheci outro velho que eu não entendia.

Entrava na sala e se sentava no chão. A gente fazia uma roda, e depois a aula virava outra coisa, que coisa era aquela? O que tem que fazer? Ele não vai falar? Que coisa de caminho é esse? Homem para o ator? Existe isso? O ator não é o homem? Eu não gostava daquela idéia de que o artista era algo mais que o homem comum, porque na hora de pagar as contas o homem comum se vira muito melhor. Eu tinha medo disso. Tinha medo de avançar e de recuar.

O velho me deu as perguntas que nunca mais me abandonaram.

Conheci o mímico também. E com a mímica, conheci meu corpo de outro jeito. Eu podia ser um engenheiro da minha postura. E fui me corrigindo, me flexibilizando, me liberando.

Ela me achou então. Era uma predadora de sujeitos como eu. Era uma ratoeira, toda intelectual, toda articulada. E deliciosa também. Me pegou lendo um texto meu, sentada em cima de uma mesa com as pernas abertas. Cada vírgula era malícia. Me ensinou filosofia e a trepar alucinado. Passei a ter sexo. Fui me enfiando no teatro e nela com a mesma intensidade. Me descobri multi-artista, passei a freqüentar as artes plásticas e ela o Teatro. Nos misturamos tanto e muito e muitas vezes. Até que nos cansamos um do outro.

Quando acabamos um com o outro eu tinha mudado. Sabia o que queria, mas não sabia como.

Fiquei num grupo que não era o meu e depois em outro e outro. Achei parceiros, amigos e uma esposa.

Fui num ensaio de um amigo e ela estava lá. Eu achava que já tinha visto ela em algum lugar, mas não sabia onde. E essa sensação me acompanha até hoje. Tava legal ficar sozinho, sem namorar ninguém. Além dela tinha uma japonesa com uma boca linda, que eu ficava tentando comer e que nunca dava certo.

A gente foi comer um dogão na porta da USP e ela começou a me cantar, daquele seu jeito mineiro. Quando percebemos eu estava apaixonado e tinha que dizer isso.

Bebíamos, conversávamos sobre o mundo, sobre o ser humano, sobre o futuro da humanidade. A gente ia sacando uma conexão muito louca e nunca nos lembramos de onde nos conhecíamos. Ela falava, eu já te conhecia das peças mas a gente nunca conversou. E eu duvidava disso.

Fomos fazendo as coisas do nosso jeito, sempre através dessa sintonia. Criamos uma cerimônia de casamento, que virava uma festa, que as pessoas nunca se esquecem. Criamos um lar e uma família.

Mas eu ainda não conseguia pagar as contas fazendo o meu trabalho.

Ela estava com a barriga imensa e o berço tinha chegado uns dias. Saiu para resolver umas coisas e me disse que quando chegasse me ajudaria a montar o berço dele. Quando ela fechou a porta eu rasguei a caixa e comecei a montar a coisa toda. Parafuso após parafuso eu fui materializando o espaço daquele futuro hóspede. Quando o berço estava de pé eu tinha me dado conta que era pai.

Claudia chegou e me encontrou chorando, emotivo. O berço tinha me arrebentado por dentro, assim como faria a frase do Garcia Marquez que eu li em algum lugar que dizia algo como “o menino pega o dedo de seu pai e daquele momento em diante o tem cativo para sempre”.

Ele saiu aqui na minha sala e eu vi seu primeiro olhar, indagativo em relação ao mundo. Não chorava. Quem chorava era eu. Cortei seu cordão e o peguei no colo. Não era meu, era ele, assim como se dava com a Claudia.

Algo mudou em mim por dentro. As dúvidas não diminuíram, mas eu resolvi tomar atitude frente à vida. A vida agora não era só minha. Eu tinha entendido que estamos aqui uns pelos outros.