Dia 11

Pronto para dar o próximo passo…

Quando me movo daqui, o que eu quero realmente?

Algo para mim?

Quis deus como algo para mim?

Quis o deserto…

E ainda o cacto, o bastão, a água oculta, o próximo passo…

Quis me desapegar da vida e vim até aqui. Até o vazio.

Aqui percebo que ainda quero algo.

Percebo que quero o vazio.

Posso me livrar da companhia do desejo?

É possível um amanhã sem o desejo?

Dia 10

Voltando mais uma vez a essa duna, ou à próxima.

Voltando mais uma vez ao deserto.

Terei eu saído daqui em algum momento?

Terei eu vivido fora dessas areias?

O antes, com sua companhia insuportável, terá existido?

Não teria tudo sempre sido esse agora? Sempre a repetição deste instante?

Sempre a mesma duna, o mesmo deserto, o mesmo homem buscando deus ou a solidão?

Um nada buscando outro.

Dia 9

Desde o dia de ontem, os dias ficaram mais presentes.

Não há ninguém para agradar.

Nem uma viva alma.

Nem deus.

Nem cacto.

Nem o maldito deserto.

Não se agradam de mim nem eu deles.

Um enfadonho e permanente agora.

Sem recompensa alguma pelo final.

Sem castigo pelo erro.

Sem nada.

Porque o tempo passaria?

Porque haveria um amanhã?

Um amanhã verdadeiro, não o ontem travestido de possibilidades.

No entanto, o amanhã real chegará. Não o amanhã do filósofo, o amanhã eterno. Não.

O amanhã do natimorto chegará.

O amanhã que se encurta, ampliando cada vez mais o ontem.

A morte.

Um deserto – dia 8

Não saio dessa situação de estar perdido.

Qualquer movimento parece ter muita importância.

Acabo acuado e imóvel, com a sensação de estagnação dominando tudo.

Que fazer para sair daqui?

Porque eu voltei aqui? Na verdade essa é a pergunta correta a se fazer.

Porque eu voltei aqui?

Por hábito.

Sempre me movi desde este lugar. É como voltar para casa.

Voltar a um ponto conhecido do caminho para, desde aí, tentar seguir adiante. Isso fazemos quando estamos perdidos.

Eu estou perdido?

Um homem olha a paisagem que tem diante dos olhos e não a reconhece.

Está perdido?

Está num novo território.

Não tem ainda a cartografia dominada.

Está perdido?

Nascimentos

Chegamos a este mundo num lugar, mas de verdade, só nascemos muito depois, em outra parte. Só nascemos de verdade, quando descobrimos a que viemos. Chegamos neste mundo cegos, vendo sombras, dependentes dos nossos desejos, incapazes de decidir verdadeiramente. Um dia, por processo ou acidente, chegamos num ponto aonde o nascer  acontece. Neste dia, somos mais vivos do que nunca. Podemos lograr que esse dia permaneça para sempre. Ou podemos retornar ao conforto das sombras e dos nossos desejos intermináveis. Neste dia escolhemos. Verdadeiramente, escolhemos.

A Casa Tomada

“Mais assustador que a idéia de um homem com a cabeça de touro é a idéia de uma casa construída para que as pessoas se percam dentro dela”, Borges – sobre o minotauro e o labirinto.
Eu te amei. Cheguei ao mundo nesta casca e me apaixonei por ela à primeira vista. Me apaixonei pelo que eu sentia através dela. Meus olhos eram as tuas janelas e a natureza era tua cozinha. Um dia senti teu teto e era duro demais e aí nos desentendemos. Teu teto e o meu tinham dimensões diferentes. Eu me afastei de ti, te achando menor que eu, pequena, atrasada e velha. Meu desejo era maior que ti. E com o passar dos anos, o amor que eu sentia virou distância e depois ódio. O esforço que outros desprendiam para que tu permanecesses jovem para sempre me irritava. Desde logo eu soube que quando eu me fosse de uma vez, tua estrutura inteira entraria em colapso e não sobraria nada. Tu dependias de mim, mas eu não dependia de ti. Me afastei de ti, me entreguei aos excessos, me afastei para além de todo limite, mas onde quer que eu estivesse, te carregava junto comigo, como um fardo insuportável. Tentei te destruir com o fogo, o frio, as inundações e os ventos sem fim, mas tu insistias em me esperar. Eu te odiava mais e mais, porque nas tuas paredes ficavam registradas as marcas de todos os meus fracassos e batalhas perdidas. (Abre a porta da casa e entra) Quando minha força de lutar se foi, eu voltei para ti, com a face do humilhado. Tu me sorriste e disseste – “Vamos?” – e então seguimos juntos para o abismo.

Limpeza (para Cortázar)

A casa tinha que estar perfeita. Incólume. Indestrutível. Nada poderia aniquilar sua beleza. Isso Irene herdou de mamãe. Quando éramos crianças, mamãe passava o dia dando ordens aos criados e conferindo o aspecto de cada recanto de nossa casa. Mamãe não se maquiava, nem foi capaz de tingir os cabelos quando a idade chegou. Nunca. Sua maneira de enganar a velhice era manter a casa limpa e em ordem como quando ela era criança. Nossa casa sempre teve o aspecto de uma fotografia. Indestrutível, sempre a mesma, não importa quantos anos tenham se passado. Os parentes se reuniam todos os anos, na festa do aniversário de tio Alberto, que era o irmão de minha avó. Todos os outros parentes envelheciam, todos cresciam, se casavam, geravam mais parentes e finalmente morriam. A casa e tio Alberto continuavam lá. Sempre crianças. Quando tio Alberto morreu, a casa se sentiu vazia. Abandonada. Naquele dia, a casa começou a envelhecer e a definhar. Eu e Irene a herdamos de mamãe e assim como ela passou a vida cuidando de tio Alberto, nós dois passamos a nossa cuidando da casa.

Releitura (para Cortázar)

Viveu a vida como se ela fosse uma cópia forjada de um de seus livros. Cada capítulo da sua vida tentando ser o ápice da trama. A cada parágrafo mais drama, mais reticências, mais insatisfação. Os livros terminavam grandiosos, mas sua vida seguia sempre medíocre e interminável. Um perpétuo capítulo, repetido dia a dia, exaustivamente. Lembrava das mínimas coisas tentando pôr uma lupa nos fatos mais insignificantes. Buscava poesia no nada que era. Mamãe tentou em vão ensinar-lhe a ter os pés no chão. Nada. Seguia inventando a vida, amassando os próprios parágrafos, rabiscando as próprias frases, como se elas sempre saíssem vazias. No dia em que Maria Esther foi embora, ele se sentou na biblioteca e abriu pilhas e pilhas de livros. Queria saber se o seu fim realmente havia chegado. Mas o amanhã veio, com menos drama e menos sentido. E ele seguiu sozinho, virando a página. Sempre se pode reler um livro…

Descontração

Eu olhava para ela ao longe, e aquela distância toda fazia com que eu me encolhesse.

Como se ao me encolher eu fosse capaz de trazê-la para mim.

Como se ao me encolher, ela aumentasse.

Como se a contração de mim mesmo fosse a contração da própria distância.

No dia em que Maria Esther foi embora, eu me descontrai.

E a descontração era tanta que eu me senti vazio.

E nunca mais pude preencher esse espaço.

Duas pelo preço de uma

Ligou numa sexta-feira e precisava do serviço para a segunda. Marcamos um encontro num café e no final, tive que pagar a conta. “Tudo bem”, eu pensei, “depois eu incluo o valor no preço final”. Ledo engano. A mulher tinha mais conversa do que eu, que acabei aceitando serviço em duas prestações por um valor simbólico. Eles são educados desde cedo para lidarem com o dinheiro. Eu, maldito cristão, odeio ter que pensar nisso. Faço por amor.
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