O soldado corporativo é o inimigo da democracia

Surtou com a headline.

Isso porque ele fez todo o processo educacional para chegar a esse ponto, de trabalhar nesse grande empresa.

Aprendeu uma série de processos e de maneiras de coordenar ações; recebe uma série de bônus, quando desempenha sua missão de forma exemplar; goza de uma série de benefícios. Um terço do seu dia é dedicado a agir dessa maneira solicitada pela corporação. Entre um sexto e um décimo do seu dia ele gasta no trajeto. Com sorte, dorme outro terço de dia e goza o que sobra. Gozar o que sobra é comprar algo.

Na empresa ele é apenas uma pequena engrenagem de um grande sistema. É preciso realizar as etapas todas do processo no momento adequado, visando sempre o objetivo maior da empresa, que hoje é o de gerar lucro para seus acionistas.

Gerar lucro é moleza: criar valor e diminuir custos.

Você cria valor basicamente usando marketing, que é um jeito de temperar a carniça. Você baixa custos basicamente criando maneiras engenhosas de pagar menos por qualquer etapa do processo (acelerando-o, terceirizando mão de obra para reduzir o valor, usando matéria prima mais barata). Em resumo, o produto é essa coisa mal feita, que vai quebrar logo, que não atende o cliente, mas que você diz que atende. E bem.

As empresas vão ficando apenas com essas pessoas que desempenham funções que estão distantes desse lugar onde o custo precisa baixar.Gerentes, vendedores, técnicos operacionais, engenheiros….

O homem que faz o produto, aquele que realmente lida com a produção, ele trabalha o mais longe possível e de maneira mais barata. De preferência, num outro país, num continente longínquo.

Fora da empresa, naquelas horas que sobram pra ele: ele vê o país através dos meios de comunicação; ele paga suas contas, cada vez mais caras por serviços cada vez piores; ele não tem tempo para participar de política, política é aquela canalhice que aparece no jornal da noite; ele não tem tempo nem gosto de participar de uma reunião, porque as pessoas “falam falam e ninguém decide nada” e ele não vê que ficou acostumado a ter chefe, a receber ordem e que ele mesmo fala fala e não decide, porque tem medo de decidir; e porque está cansado também, porque passa horas e horas no trânsito ouvindo rádio de seguradora; quando ele caga, ele lê aquelas revistas que são empresas como a dele, dizendo as mesmas coisas que ele ouve dentro da empresa; ele não vê que a empresa cercou ele, que quando ele dorme, sonha que foi promovido, que está de férias. Na empresa sempre, mesmo no sonho.

Na TV os ladrões são esses homens que roubam os bancos, que levam as pessoas embora ou que recebem propina. Os ladrões pobres morrem em loop. Mas os ladrões ricos se candidatam a novos cargos. Os ladrões ricos dão lucro a alguém. Como ele. Ele não se sente ladrão, mas vocifera contra o trombadinha e não consegue ver o político sem uma certa dose de admiração. O político é, afinal de contas, um homem bem sucedido. É rico. Tem coisas.

Fatalmente chega o dia do desemprego. O nome: desemprego. Querendo dizer que você não serve para nada. Que você não funciona mais e por isso não merece ser funcionário. Uma coisa velha, sendo descartada com uma indenização e o fundo de garantia (cada vez mais ameaçado, porque uma empresa está de olho na lucratividade da previdência e um grupo de funcionários dessa empresa estuda maneiras de tomá-la de uma vez das mãos do governo). Ele entra com o pedido de seguro desemprego e volta para o mercado de trabalho.

Ele espera uma “recolocação”, porque agora faz parte do estoque de mão de obra desempregada. Ele vale menos agora. Porque a reserva está acabando e ninguém quer pagar o que ele ganhava. Ele precisa desesperadamente entrar no mercado, porque fora do mercado, fora da empresa, ele vê o país que ele construiu não com sua omissão, como ele costuma pensar vez ou outra. Ele vê o país que ele construiu ajudando a empresa a roubar o cidadão.

Mas ele volta aos políticos, aos juízes corruptos e ao fato de esse país ser o Brasil.

“O problema é a gente.”

A gente que ele sangra, quando trabalha e sangra.

A gente que ele é, mas esquece.

Que ele é, mas parece que era na Indonésia, China, Índia, África, Haiti, Bolívia, Taiwan, Bom Retiro… O mesmo, ele.

 

Um novo Nuremberg

Não há inocência ao se trabalhar numa organização que comete crimes contra a humanidade. O trabalho parece purificar qualquer crime e ganhar dinheiro parece eliminar o cheiro da morte. Mas a verdade é que você acorda e põe seu sangue, sua mente e seu corpo na máquina que mata milhões. Depois lamenta a ineficácia do Estado e do Governo, mas você mesmo já abriu mão da sociedade quando se tornou um soldado corporativo.

Você não tem mais horas para se dedicar à sociedade, para ser um cidadão. Você quer apenas votar, num dia de sol, escolher o mal menor e assistir a TV, cansado de ter dado o sangue para a Empresa, em troca da possibilidade de comprar mais cacarecos e de pagar mais contas. O Governo é esse amontoado de funcionários corruptos, numa Empresa ineficiente. Aliás, todo agrupamento humano que não é a Empresa é ineficiente, amador, corrupto.

Aquele Governo do lado de fora da Empresa não se relaciona com você. Ele parece impedi-lo de se desenvolver. Ele tarifa você e você pensa que é injusto, porque aquele Governo não trabalha para você, como a Empresa diz que faz. O Governo não te oferece benefícios. Não te bajula e ainda te tarifa para pagar os pobres, os velhos, os inválidos, os desempregados, os políticos, os juízes e os policiais.

Então o Estado se desmantela numa bandalheira. Os políticos, comprados também pelas Empresas, também eles soldados corporativos, eles fazem o que podem para implementar o novo regime. Atacam por todas as frentes, atropelam os direitos civis. O que são direitos civis, quando não há Estado? Quando não existe ninguém mediando, a não ser o lucro? Os improdutivos, os fracos, os não lucrativos, esses todos… Quem governa para eles? Ninguém.

Enxugam os custos dos nossos direitos e transformam direito em produto, com faixas de preços e níveis de atendimento. E só descobrimos a lástima de serviço prestado quando precisamos dele.

Mas você também envelhece, se deprime, perde o rumo da vida, fica em dívida. Finalmente deixa de ter utilidade para a Empresa e se vê pendurado no Estado. O terror é enorme, porque agora você é o pobre que  o Estado sustenta. Você se recusa a pedir o benefício e se contenta com as indenizações até ser recolocado. Mas seu preço baixa mais e mais. Agora tem um moleque mais novo que você e ainda mais implacável. Ele se vende por um preço ainda menor e é mais eficiente do que você. Você aceita trabalhar por menos, ou não. Mas não dura mais.

Te sobra ser um Empreendedor. Ninguém vai te contratar pelo preço que você vale. Então você abre uma pequena empresa para prestar serviço para as Empresas. Você não percebe, mas agora você é ainda menos que o funcionário, porque paga ainda mais para o governo, com mais responsabilidades. Fatalmente, em nome do lucro e do crescimento, você vai treinar mais moleques, pagando ainda menos, e com isso você vai preparando mais soldados para essa máquina. Gente que trabalha o mês inteiro para comprar o melhor celular que for possível, mesmo que fique em dívida eterna.

Esses serão os homens que matarão o mundo.

Ainda mais rápidos e ferozes do que você.

 

 

 

Um exercício de planejamento

Eu hoje vou te propor um exercício de planejamento um pouquinho diferente.

Você pode fazer esse exercício com papel e caneta mesmo, mas se tiver mais familiaridade com softwares de planilhas numéricas, também serve.

Desenhe uma tabela com duas grandes seções. Na primeira você vai colocar suas RECEITAS, isso é, aquilo que as suas fontes pagadoras: seus clientes, empregadores, rendimentos. Na segunda seção, vão ficar as suas DESPESAS, isso é, tudo aquilo com o que você gasta a sua RECEITA.

Mas a gente vai ampliar um pouquinho essas duas noções. Em primeiro lugar, você vai pensar que RECEITA é algo que você obtém em troca da sua energia vital dispendida no tempo. Em segundo lugar, DESPESA vai ser tudo aquilo que você empreende para obter mais energia vital.

Equilibrar o orçamento doméstico é equilibrar o seu dispêndio de energia vital na construção da sua realidade. É muito importante lembrar dessa última parte: “na construção da sua realidade”. É extremamente importante. É aqui que entram os seus sonhos, seus projetos, suas alegrias.

Então não basta que a equação RECEITA – DESPESA se iguale a zero. É preciso gerar um excedente e é nessa sobra que está o futuro.

Para quem eu desejo ceder minha energia vital e meu tempo? Qual a maneira mais eficaz de obter energia vital e tempo para construir realidades?Agora vem a política na coisa toda. É uma pesquisa que vai te tomar um certo tempo, mas você só vai precisar fazer essa vez.

Ao lado de cada produto que você consome, na seção DESPESAS, você vai anotar o fabricante do produto. E ao lado do fabricante, o nome do dono da empresa, ou dos associados conhecidos. Essas pessoas são aquelas que você sustenta quando compra o que elas fornecem, com o tempo e energia vital delas, para suprir a sua energia vital.

Faça a mesma coisa na seção RECEITAS. Anote o nome da suas fontes pagadoras. As empresas, os proprietários e os principais nomes que você se lembrar. Você cede sua energia vital e tempo para que essas pessoas supram a energia vital delas.

Perceba agora como RECEITA e DESPESA se misturam nessa conta. A minha RECEITA é a DESPESA de alguém e vice-versa. A todo tempo você está trocando um quantum de energia vital com outros seres humanos.

E é preciso que a relação seja vantajosa para ambos, se todos quiserem o direito a realizar seus sonhos e projetos futuros. É preciso que se sejam relações que gerem excedentes, certo? Para ambos os elementos. E que ambos os elementos tenham autonomia para gerir esse excedente.

Agora olhe essa lista com sinceridade e veja o enorme desequilíbrio de alguns nomes que aparecem. Perceba agora que certos nomes da sua lista recebem energia vital de grandes conjuntos humanos. Estou falando de monstrengos corporativos com mil braços, que tentam ganhar dinheiro com qualquer movimento que você faz tentando correr atrás de energia vital.

Cada bloco desses sustenta um número de pessoas, age de uma determinada maneira no planeta e remove um quantum de energia que não é reposto. Para onde vai?

Você entende onde quero chegar?

Existe um conjunto (cada vez mais seleto) de pessoas no mundo que você sustenta com a sua energia vital. Na maior parte do tempo, você não percebe onde está colocando essa energia.

Mas esses senhores nos cercaram de tal maneira que, simplesmente por estar aqui vivo estou colocando energia na vida deles a cada movimento meu. E não tenho retorno na mesma medida.

Eu invisto muito nesses senhores. Muito.

Saiba quem são eles na sua vida.

Pare de colocar dinheiro neles.

Veja se é possível e como.

Corte suas relações com esses parasitas.

É isso o que eles são.

 

 

Dinheiro e Tabefe

Oi. Eu quero te ver pessoalmente.

Não dá para falar o que é preciso falar por aqui. Não é seguro pra nenhum de nós.

Eu sei que você está achando que está sozinho, que os outros estão loucos ou burros, que ninguém vai fazer nada, que não vai adiantar chorar, espernear, protestar, nada…

Eu sei que você está vendo esses senhores sinistros, recebendo seus cargos com a clara intenção de nos manter em silêncio, de retroceder os nossos direitos e de leiloar nossos bens. O Sinistrério é um balcão de negócios escusos. Os donos do golpe não vão aparecer nunca. Nunca.

Sei que parece que não há justiça, com um supremo agindo dessa maneira. Sei que parece que não existem os três poderes e sua independência. Sei que a mídia constrói a narrativa em termos de esperança, paz e vamos mudar de assunto…

Não brigue na sua timeline. Não.

Não se obrigue a corrigir seu parente. Não.

Não escreva em caixa alta.

Não faça piada.

Não ventile memes.

Saia da tela.

Largue o mouse, o celular, o tablet e o i-treco qualquer.

Vamos nos ver?

Nós precisamos construir outra coisa. Mas é preciso que a gente se encontre e converse. Nós precisamos reunir gente como a gente.

Temos que refazer um acordo. Temos que refazer uma nação.

Direitos

Hoje eu contei pra um amigo que muitos figuras do SEBRAE eram ligados ao PSDB. E que esse lance do M.E.I. (micro empreendedor individual) era um jeito de a gente ir aceitando a perda dos direitos trabalhistas. Comentei com ele que a “pejotização” do trabalho era uma das linhas de estratégia para essa agenda. E falei que a M.E.I., como alternativa “simples” era na verdade uma outra linha de estratégia dessa mesma agenda.

Eu fui caçando esses links porque tem um diretor do SEBRAE que saiu candidato pelo PSDB nas últimas eleições. Esse mesmo cara foi assessor do Geraldinho, na época em que eu estava na faculdade. Eu pensei isso sozinho, tá. Porque eu conheço o sujeito em questão, que era namorado de uma amiga minha (que eu adoro) e eu me lembrei dessa divergência. Só hoje é que eu achei essa notícia aqui: http://jornalggn.com.br/noticia/aparelhamento-politico-no-sebrae-sp-gera-demissoes

Daí que o SEBRAE tem palestra com o Skaf, da FIESP, que é membro do seu conselho deliberativo. E é também quem paga o pato.

O lance do M.E.I. é que parece um enorme benefício para quem está na informalidade (isso é, quem trabalha sem carteira assinada, sem contrato, sem benefício, etc…). A gente agora tem que ser empreendedor e é super bem assessorado pelo SEBRAE nesse processo. O negócio é que essa assessoria é uma baita vaselina para o sujeito que já está com os seus direitos trabalhistas reduzidos pela “pejotização” do trabalho aguentar a tora dessa agenda nefasta do neoliberalismo.

Então ninguém tá vendo que é a mesma coisa. Os políticos lá no congresso ou na assembléia (a legislativa e a de Deus) são só cortina de fumaça. Os operadores reais são as associações de empresários do nosso país, de empresários estrangeiros e os banqueiros. Então essa operação toda, que você fica achando que é coisa de Brasil corrupto é na verdade uma coisa toda orquestrada pelo pessoal que comanda onde é que o dinheiro vai estar. As corporações e seus funcionários.

São sempre os mesmos, entende?

Daí meu amigo “ficou de cara”, como ele mesmo disse…

Eu tô pensando que é engraçado esse negócio todo. Porque os empresários, mesmo os pequenos, reclamam que os encargos para o governo são enormes. E que a “máquina governamental” é ineficiente e corrupta. Que muito dinheiro desaparece…

Então a gente fala de reforma tributária. E ela não anda.

A gente fala de reforma política. E ela não anda.

E os políticos que deveriam ter essas coisas na pauta são financiados pelo setor que deseja ardentemente que o Estado seja ineficiente.

E eu me dou conta de que se o Estado for ineficiente, alguém vai ganhar com esses serviços que ele deveria prestar.

A democracia corre perigo aqui em casa. A gente sem emprego, tentando empreender nossas idéias, o país nesse estado. Sabe quem é que ganha com a minha mulher chorando? O banco.

Ele vai dar um empréstimo para a gente esperar a crise passar.

A crise que ele mesmo gerou.

E o governo, que deveria estar nos defendendo? Cadê ele?

Nunca houve. Não esse. Nem nenhum, já faz algum tempo.

O governo é essa coisa corroída por interesses corporativos.

Esse zumbi.

Então eu estou pensando que o governo não pode ser essa coisa gerida por políticos. Tem que ser algo gerido pelos miseráveis. Por mim. Pela Claudia, que chora. Pelos meus filhos e amigos. O parceiros da minha timeline real. Aqueles com quem eu tomo café, cerveja e discordo. Mas que lavam a louça antes de ir pra casa.

Eu não me importei com o fato desse rapaz que namorava a minha amiga na época pensar diferente de mim. Nós fomos criados em situações muito diferentes. E eu acho mesmo que ele é bastante eficiente naquilo que decidiu fazer. E ele encontra apoio de outras pessoas que também acreditam nisso.

Isso eu admiro neles. Eles encontram apoio uns nos outros, enquanto a gente desmorona, fracassa e se endivida. Porque a gente se envergonha disso e abaixa a cabeça. E fica sozinho no escuro. Esperando a crise passar.

Eu não quero mais isso.

Quero tomar café com você, na crise mesmo. Quero te ajudar, com aquilo que eu puder. Eu estou aqui. Estou com você.

Quero atravessar isso e superar.

Eu não confio nesses senhores.

Não confio nem um pouco.

 

Humanum est

Eu fui crescendo e as coisas prontas do mundo foram aumentando.

Eu digo as coisas prontas, porque quando eu era menino, eu ia criando coisas com pedaços de coisas e fazendo isso, eu aprontava um mundo que se acabava em brincadeira.

No começo de quando eu fiquei grande, eu ainda era esse menino aprontador.
Eu pensei que trabalhar era isso e brincava no serviço, criando coisas que o cliente não aprovava. Num é certo.

Daí peguei o jeito daquilo que funciona pra todo mundo e quando eu vi, já estava fazendo coisas que estavam prontas antes mesmo de eu começar a fazê-las.

Daí a invenção foi se apagando e o mundo ficou cheio dessas coisas prontas.
E por mais que eu trabalhasse, não tinha nada pra fazer.
Já tava tudo feito.

Um dia eu acordei com dor no peito de ir pro trabalho.
Queria ficar na cama, achei aquilo tudo errado.
Tinha boleto, conta no vermelho, prestação e prazo.
Se eu levantasse aquele dia, era só pra ganhar dinheiro que eu acordaria.
Não quis acordar.
Não teve acordo.
Fiquei doente e era remédio que me deram.
Remédio pra eu ficar bom.
Pra amansar o peito.
Pra continuar acertando, fazendo o pronto.
Batendo ponto.

Daí não teve jeito de eu acertar o rumo.
E eu tive que sair.
Fiquei sem serviço.
Sem nada pra fazer.
Sem função nenhuma.
Sem emprego.

No começo eu nem achei falta.
Mas a vida tava toda tão penhorada nas contas, que uma hora eu me desmantelei.
A luz sumiu, cortaram a água, a saúde ficou sem plano e eu tive que devolver a casa.
Sobrou só as ferramentas.

Daí eu voltei pra trás, atrás do menino.
Fui caçar o rumo do acerto.
Fui brincar, zanzando pra lá e pra cá.

Eu queria experimentar coisas novas, mas não sabia botar dinheiro nelas.

Larguei mão dele, então.
Daí eu vi que num era o dinheiro.

Era que eu tinha medo que não gostassem.
Tinha medo de fazer de novo e de novo e de novo… até chegar numa coisa que o cliente gosta, mas eu acho bosta.

Tava com medo de fazer coisa errada.

Daí que eu pensei que a gente não pode levar a vida tentando agradar. A gente tem que se agradar dessa coisa que fica dentro de nós e que nunca tá pronta.

E a gente vai botando ela pra fora, nas coisas que a gente faz.

E que a gente não pode ter medo de errar.

A gente anda sem rumo, mas anda no nosso passo.

E vai tentando e tentando.

E quando cai, levanta.

E uma hora, fica bão.

Água

Os hindus dividiam o ano em dois períodos, de três estações cada, baseados na abundância ou escassez de água.

No período de hidratação, o sol se encontra enfraquecido por diversos fatores, como as nuvens, o vento, as chuvas e tempestades, mas a lua, em relação com a água, não sofre a mesma influência. A terra é aliviada do calor pelas chuvas e neste período, nós temos a nossa constituição fortalecida. No período de desidratação, a influência do sol é mais forte e os ventos são mais secos, velozes e acentuados e isso vai progressivamente acentuando a secura do período. Como resultado disso, nossa constituição enfraquece.

De Janeiro a Março temos a estação das chuvas. Seguida pelo outono, entre Março e Maio. Depois, o inicio do inverno, entre Maio e Julho. Esse é o ciclo de hidratação, que vai aumentando nos meses de Janeiro a Março, chegam em seu apogeu nos meses de Março e Maio e depois declinam, entre Maio e Julho. A capacidade de refrigeração da lua se encontra favorecida, pois a influência do sol é diminuída pelas nuvens, ventos frescos, chuvas e tempestades. Os sabores azedo, salgado e doce, que causam oleosidade no corpo e retenção de líquidos, são acentuados.

O ciclo de desidratação se inicia nos meses de Julho a Setembro, com o final do inverno. Segue-se a primavera, entre Setembro e Novembro e finalmente o verão, de Dezembro a Janeiro. Neste período, os efeitos do sol são predominantes, pois os ventos são acentuados, velozes e muito secos, afastando a presença das nuvens. Os sabores amargos, adstringentes e pungentes, todos eles com efeitos desidratantes, são acentuados.

Os períodos críticos para a nossa saúde são o início do período de hidratação (Janeiro a Março) e o final do período de desidratação (Dezembro a Janeiro). Por outro lado, os períodos ótimos para a saúde são os meses de Maio a Setembro, que correspondem ao final do período de hidratação e o início do período de desidratação.

 

A medida de todas as coisas

Essas quatro afirmações e me parecem a mesma:

“O Todo é Mente, O Universo é Mental.”, Caibalion, Os três iniciados

O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são., por Protágoras

“O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.”, Tábua das Esmeraldas, Hermes Trimegisto

“Trate os demais como queres ser tratado.”, A regra de ouro, por Silo.

Por alguma razão me pareceu que tudo o que o homem vê é a natureza da sua própria mente. Enquanto não conhece a si mesmo, não conhece nada e tudo o que vê são respostas transitórias à pergunta que intimamente faz a si mesmo: “quem sou eu?”

Aquilo que está em cima, nos céus é como aquele que está abaixo e olha para os céus. Então esse que olha para o outro sabendo que é como o outro, encontra o milagre da unidade, quando logra tratar o outro como quer ser tratado.

Como trato aquilo que está em cima e o que é que está acima do homem?

Circadiano

Isso tudo começa como um pensar sobre a lucidez e a sanidade.

Eu leio que a palavra lucidez implica em luz. E vejo que lucidez e sanidade estão associadas, então infiro que aquilo que está na luz necessariamente é são. Mas à luz do dia proliferam as mazelas e a insanidade está por toda a parte, com a lucidez sendo menos que um sonho.

Eu chamo dia aquele meu tempo útil. E uso a palavra diário como objeto, para descrever como me sinto a cada período. Ou como adjetivo, para designar aquilo que é feito constantemente. Mas percebo que nem sempre aquilo que é diário é útil, como meus vícios, como aquelas coisas todas das quais eu quero me livrar em mim e não tenho a menor idéia de como fazê-lo. Também para isso, naquilo que é diário, me falta lucidez.

A clareza, a capacidade de atuar sobre a realidade, a vida útil do homem, legada ao dia. E somente à noite ele parece sonhar. Sendo o sonho o lugar onde o homem perde a capacidade de agir e se vê às voltas com um mundo paradoxal onde o impossível acontece e ele nada pode fazer. E então eu me pergunto: age mesmo o homem, durante o dia? Ou está também imerso num outro mundo paradoxal, com uma ação eficaz sobre a própria vida acontecendo somente na aparência das coisas? Com um conjunto de significados que ele não pode manejar adequadamente? Com escolhas determinadas por forças que ele desconhece?

Por outro lado, essa ordem que emerge subitamente nos momentos de maior obscuridade. À noite, enquanto durmo e sonho algo que me revela um ponto que eu não conseguia enxergar durante o dia. Ou ainda, naqueles momentos da vida em que nada mais parece fazer sentido, em que tudo se obscurece e a razão não encontra seu fio, surge a absoluta clareza de um padrão que se repete e do qual é preciso sair.

As associações aprendidas entre dia e noite precisavam ser refeitas. Algo não estava de acordo. Algo não funcionava à contento. E começou a me parecer que essas atribuições de valor sobre o que era dia, são, lúcido, correto, dentro da lei, civilizado, apolíneo e seus opostos noite, insano, lunático, desviado, marginal, selvagem e dionisíaco eram desenhados para manter o homem sob controle.

O maior efeito da civilização é envolver grandes conjuntos humanos em prol de uma idéia. Da idéia de um único homem ou de um conjunto pequeno de homens. E são esses poucos aqueles que se beneficiam desta técnica.

Um homem tem uma idéia sobre como os outros homens deveriam se portar. Ele traveste essa idéia de luz, agregando a ela termos e sentidos que a conduzam a outras associações com a luz. Ele faz a crítica de tudo o que não se parece com essa idéia e com isso vai circunscrevendo o perímetro daquilo que será a sua normal. Ele usa a dialética, dentro e fora. Dentro, sendo o claro, o ordenado, o futuro. E fora sendo o caos, a obscuridade e o retrocesso.

Então esse homem agora é o líder de algo. Ele é a luz da razão. Sendo razão, aquilo que proporciona, que equilibra, que harmoniza. Traduzindo aí, harmonia como sendo apenas o dia e a lucidez. Harmonia como sendo controle.

Eu comecei a olhar as civilizações conhecidas e ver nelas essa oposição. Deuses do dia e da noite. E seus atributos. Os instrumentos de previsão dos ciclos, das marés, das colheitas, os oráculos. A própria idéia de um ciclo. Ver a resultante dessa mítica naquilo que restou dessas civilizações, em termos de obras, de registros. Comecei a ligar os pontos em comum, apesar de tanta diversidade cultural. E percebi que deveria haver algo no homem que tivesse muita adesão a este tipo de idéia.

O que é que não mudou na paisagem do homem neste período inteiro de que temos registro? Não a cultura, as relações, a idéia de educação, os valores… Possivelmente a sua biologia. Sua estrutura física.

Algo na nossa biologia faz com que Einstein proporcione luz e desagregação em sua equação E=mc². Energia, sendo desagregação é gerada quando a matéria é acelerada além do quadrado da velocidade da luz. Presos a esse quadrado, ameaçados com a completa desagregação de nossos corpos materiais. E ainda, a luz e seus benefícios. Einstein preso à luz e seu oposto como os egípcios estavam presos a Osíris e Seth.

Fui buscar no sistema nervoso a estrutura que estivesse relacionada com a nossa percepção e ajuste ao dia e à noite e foi então que encontrei o hipotálamo.

Analógico

Eu descolei um iPhone 4S só para perceber o quanto estou me tornando analógico. O velho macbook branco ficando no canto da sala, fechado, cada vez mais tempo.

É complicado enxergar as postagens na timeline do iPhone. Isso faz com que eu passe menos tempo olhando o que meus amigos e conhecidos têm a dizer sobre aquilo que passou na TV ou na timeline. Só uso o iPhone com Wifi, porque não pretendo assinar esses pacotes de internet que as operadoras apresentam. Fico imaginando essa timeline de Facebook, que parece os jornais de Harry Potter, baixando vídeos a cada rolagem e os pacotes de download indo para o saco, enquanto eu permaneço distraído.

Gosto da agilidade do aparelho. E do tamanho. Tiro do bolso, abro um browser, pesquiso alguma coisa e fecho. Pronto. Tiro umas fotos e subo em algum lugar. Procuro um endereço para fazer qualquer coisa.

Eu mexo com essas máquinas desde que eu tinha 11 anos e a minha opinião é a de que elas foram ficando cada vez mais interessantes até se tornarem desinteressantes. É quase como se eu estivesse vendo acontecer com o meu uso de computadores o mesmo que já aconteceu com meu uso de televisão.

Passo boa parte do dia fazendo coisas manuais. Escrevendo minha pesquisa numa das mil cadernetas que eu tenho aqui em casa. Desenho, cuido da horta, dou pito na molecada, durmo, escrevo, leio livros impressos…

A máquina fica para essas horas em que eu não quero fazer nada.

Houve um tempo que essa máquina significava trabalho. Eu me sentava aqui e explorava a máquina aprendendo algum software desafiador. Foi assim que eu fui aprendendo a editar imagens, diagramar, editar audio e vídeo, modelar objetos 3D, programar…

Depois virou um depositório de informações que eu podia acessar. Livros, músicas, quadrinhos, filmes, etc…

Com o tempo eu fui descobrindo esses mini computadores, a tal “internet das coisas”. Aprendi Arduíno, Beaglebone e finalmente o Raspberry Pi. Então montei essa maquininha que faz download automatizado dos filmes e séries que eu quero ver. Reduzi meu plano de TV à cabo, aumentei a velocidade da internet, pluguei a máquina na minha TV (com tubo ainda!) e então esqueço que essa máquina é um computador.

Parece que eu estou vivendo em 1984. Antes de começar meu interesse por essas máquinas.

Eu era esse moleque que construía coisas, brincava, e desenhava.

Totalmente analógico.