O quinto homem

Print

Em Santa Rita do Passa Quatro, eu não passei. Era o quinto.

O guarda me deteve e pediu para verificar a documentação do veículo. Triunfalmente, com meus dois filhos pequenos sentados nas obrigatórias cadeirinhas-do-banco-de-trás eu saquei minha carteira de motorista e mais a papelada do veículo.

“Idiota”, pensei, desafiando a lei. O homem reteve a carteira, vencida a mais de um mês e me diz que vai apreender o veículo.

“Fudeu”, eu disse, vendo a lei cair na minha cabeça. Vinte minutos depois, numa negociação em que eu não podia dizer a palavra dinheiro, e nem o guarda  podia me pedir uma caixinha, o sujeito me apresenta uma solução: arranjar alguém com a carta em dia para dirigir meu carro até que ele saísse de quadro da câmera de fiscalização.

Caralho! Figurante até no meu próprio carro…

Compartilhe:

A máquina (ou moto-perpétuo)

Print

I.
Ao mover-se, gerava energia.
A energia permitia que ela se movesse.
Mas não havia energia para sempre.
Nem movimento.
Na sucessão de dias, o movimento cessava e a energia para mover era gasta.
A energia gerada não era suficiente para mover o circuito novamente.
Algo falhava no projeto que degradava a energia e o movimento no tempo.
O fixo com sua tendência a permanecer.
Não podia remover o fixo, sem a perda total do funcionamento.

II.
O fixo ancorava o movimento.
Era o chão firme onde o movimento acontecia, gastando e gerando energia.
Removia partes do fixo, imaginando a máquina sem elas.
Algumas faziam mais falta do que outras, mas o fixo de todo não podia ser removido.
A própria engrenagem do que se move é feita do fixo, concluiu.
O movimento do fixo parecia então um falso movimento.
Parecendo uma caricatura do movimento verdadeiro.
Parecendo uma piada de mau gosto.

III.
Ainda assim, o fixo se move, uma vez que se imprima uma energia constante.
De que é feito então o fixo?
De mais partes fixas?
É possível o fixo do fixo?
O fixo do fixo não se oporia a mover-se, recusando toda possibilidade de mudança?
O fixo do fixo não se romperia, antes de ceder ao movimento?
A ruptura é mudança.
Então não é possível o fixo do fixo.
Há sempre algo móvel.
A ruptura é mudança.
Romper-se para mover-se.
No fixo está o móvel.
No fixo está a possibilidade.
Será o fixo uma ilusão?

IV.
O fixo, sendo possivelmente uma ilusão e essencial ao movimento, não pode ser a razão do mau funcionamento da máquina.
Talvez o tempo.
O tempo em si degrada o movimento.
O tempo tende a tornar o movimento fixo.
Entendendo ainda o fixo, como a degradação daquilo que se move, o fim da energia.
O movimento tendendo à fixidez. Tendendo à ilusão?
Será o fixo, uma ilusão?
Ainda assim, no tempo, a máquina cessa o movimento e cessa a energia.
Entre o tempo diário e o tempo infinito, a máquina cessa seu funcionamento, tendendo menos ao infinito do que ao cotidiano, na medida da proporção e da harmonia entre suas partes.
Quanto mais harmônica, mais tende ao infinito e ainda assim, cessa.
A máquina voltando ao seu estado inicial e necessitando de mais energia para funcionar.
Gastando energia ao funcionar, sem gerar energia suficiente para continuar se movendo autonomamente.
Sempre ávida por energia.
Sempre tendendo ao passado.

V.
A máquina, talvez, devesse ser construída já se movendo.
Já em processo.
Sendo a origem o próprio movimento, a máquina, com sua propensão ao passado, tenderia sempre a buscar o movimento e então jamais cessaria de mover-se.
A base da máquina sendo o móvel e não o fixo.
A base da máquina sendo o infinito e não o finito.
Pensa a harmonia das peças, a beleza dos encaixes feitos para serem montados em movimento.
Cada detalhe do projeto, cada pequena conexão.
Falta o início.
Falta o início, mas o infinito deve prescindir de um início, assim como prescinde do fim.
A máquina deve ser montada em movimento toda de uma vez, para que nenhuma parte permaneça fixa. Para que nada tenda ao fim.
Como montar a máquina com todas as peças se movendo ao mesmo tempo, em relação umas com as outras?
Como calcular o momento exato do encaixe perfeito entre todas as peças.
A harmonia perfeita.
Vai precisar de ajuda.
Vai precisar de ajuda, são muitas as peças.
Vai precisar de velocidade, de precisão.
De um cálculo perfeito, para que tudo se encaixe perfeitamente.
Ainda não tem clara a máquina, mas sabe que é possível.

VI.
Observa agora a máquina que tem diante de si, a primeira, e têm claro nela as imperfeições.
A desarmonia de suas partes.
O modo como elas foram montadas estaticamente para depois mover-se, tendendo por isso, ao estático.
A condição de origem equivocada, apoiada no fixo e não no movimento.
Como pode ter se equivocado tão grandemente?
Agora que sabe que a máquina infinita é possível, seus feitos anteriores parecem menores.
Ainda assim, houveram acertos.
Ainda assim, essa máquina imperfeita foi o degrau que o possibilitou pensar na máquina infinita.
Apenas o degrau.
Um degrau como tantos outros.
Como o anterior.
E pior ainda, como o próximo.
Ainda um degrau.
Apenas mais um passo e não o passo definitivo.
Apenas mais um movimento e não o lugar de chegada. O ponto fixo.
O fixo nele e não na máquina.
Ainda assim, o fixo.

VII.
Percebendo o fixo em si mesmo, compara-se à maquina.
A necessidade da máquina infinita se faz ainda mais evidente.
Como se a máquina infinita fosse a rendenção de sua própria fixidez.
A concretude da máquina infinita e a flexibilização dele mesmo.
A fixidez da máquina e o movimento dele.
A máquina infinita, pronta, acabada.
Terminada.
Realizada.
E ele se movendo, sempre.
Sempre sem fim.
Em direção a outra coisa.
A outro projeto.
Para onde se moveria quando terminasse a máquina?
Terminaria a máquina?
Seria possível?
Entre a máquina infinita e seus projetos sem fim, o vazio.
Um vazio.
Um vazio tendendo a ser preenchido.
Um vazio clamando por algo.
Não um vazio inerte, fixo.
Um vazio que se move em direção a algo.
Um vazio como ele mesmo.
Como a máquina infinita.
Como tudo.
Um vazio buscando energia e gerando energia nessa busca.

VIII.
Que algo é esse em direção a que o vazio se move?
Não se gastaria esse objetivo quando o vazio o alcançasse?
Não um algo provisório.
Um algo permanente, não fixo.
Um algo sempre se movendo?
Um algo também tendendo a algo?
Um algo vazio, de certo modo?
Um vazio tendendo a outro?
Não.
O vazio tenderia a completude.
Àquilo que realmente importa.
Esse algo.
É possível algo permanente, não fixo e completo em si mesmo para onde o vazio tende?
É possível algo tão essencial, tão íntegro, tão profundo, que permitisse ao vazio permanecer vazio e ainda assim, buscando?
Que promessa é essa que move o vazio em direção ao infinito, gerando infinita energia, sem se gastar nunca?

IX.
Não se cansaria o vazio de buscar esse algo, sendo somente uma promessa?
Não falsearia a concretude desse algo, buscando imitações do algo inatingível.
Provisoriedades, que compensassem a busca permanente daquilo que não pode ser obtido?
Como esse algo logra que o vazio o siga perseguindo?
Que faria o vazio, atingindo esse algo?
Seria completado?
Neste caso, o movimento cessaria.
Também o vazio e o algo, se aniquilando.
Para que o movimento não cesse, o algo precisa dar ao vazio aquilo que nunca o irá preencher totalmente, porque o vazio não foi feito para ser preenchido.
Mas o vazio se cansaria dessa promessa.
Precisa ser algo infinito.
Uma energia infinita, sempre consumida pelo vazio, também infinito.
O vazio e o algo não se possuindo. Não se aniquilando.
Nem o algo ilude o vazio, nem o vazio gasta o algo.
Vazio e algo se necessitando mutuamente.

X.
É possível uma máquina infinita, com peças não fixas, sempre em movimento.
Uma máquina feita do vazio e de algo que é buscado pelo vazio, ao mesmo tempo que busca o vazio.
O vazio e algo que busca o vazio e é buscado pelo vazio.
Nem o vazio é fixo, nem aquilo que ele busca.
O algo permanente não fixo, buscado infinitamente pelo vazio.
A máquina capaz de gerar energia infinita e de se mover infinitamente.
A máquina profunda, infinita.
Que não cede ao tempo, não termina nele.
Em movimento, sempre.
Sem nunca parar.
Nunca gastar.
A permanência em não permanecer.
O vazio abraçando infinitamente o algo que abraça infinitamente o vazio.

XI.
Uma máquina que não é feita de nenhum deles isoladamente.
Nem do vazio, nem daquilo que busca o vazio e é buscado por ele.
Nem a máquina é o vazio, nem aquilo que o vazio busca.
Para encontrar o vazio perfeito, é necessário encontrar aquilo que atrai o vazio.
O permanente não-fixo.
Para encontrar o permamente não-fixo, é necessário fazer o vazio.
Isso é a máquina. Essa busca.

XII.
A máquina é o próprio movimento e a energia que o move.
A máquina infinita, nem máquina é.
É a possibilidade futura, infinita.
Capaz de mover tudo infinitamente.
A que nunca é consumida, nem consome e ainda assim, se move.
Que não é dada porque não pertence a ninguém.
A proporção perfeita de tudo.
A que supera o tempo.
O que não é manifesto em tudo, mas que em tudo está.

Compartilhe:

Cesário

Print

Nasce de cesária.
Nem se esforça pra nascer. Somente nasce.
O peito some logo do seu convívio e logo conhece a mamadeira.
Chupa sem esforço, um leite em pó semi-metabolizado, com vitaminas para que ele não tenha que se esforçar para se curar de uma doença.
Não precisa se esforçar para prestar atenção.
Sua falta de atenção vira doença.
Se vacina, se farmacopeia, se remediza, se acalma com pílulas.
Não precisa pensar. Recorta e cola o pensamento de outros.
Seus fracassos são dissimulados com uma alegria em comprimidos.
Importa o dia de amanhã, em que ele será um campeão.
Alguém paga para que ele avance.
Alguém paga para que ele esteja sempre a frente.
Alguém paga para que ele sempre tenha experiências marcantes.
Mas nada o marca, porque não há esforço.

Se esforça somente para não morrer em vão.

Compartilhe:

Micmacs – Filme novo do Jean-Pierre Jeunet

Compartilhe:

Autômato Sisífo

Cada um dos três movimentos é controlado por uma engrenagem com um número primo de dentes (23, 43, 59). Técnicamente, isso significa que o boneco vai ter a mesma expressão a cada 58.351 voltas da manivela. Para quem assiste, isso traz uma sensação de vida, porque os movimentos do boneco não são repetitivos como os de uma máquina. Ou pelo menos, não conseguimos notar isso em pouco tempo. O cara também criou um gatilho para o movimento da cabeça que é quase aleatório e acaba expressando bem o cansaço.

Legal mesmo!

Post completo em: http://blog.makezine.com/archive/2010/04/sisyphean_automaton.html

Galeria de como foi feito no Flicker

Compartilhe:

Companhia

Print

Em outra escuridão ou na mesma, um outro, criando tudo pela companhia. Isso, à primeira vista, parece claro. Mas, à medida em que os olhos se detêm, vai ficando obscuro. Na verdade quanto mais os olhos se detêm mais obscuro fica. Até que os olhos se fecham e, livre da observação atente, a mente indaga, Que significa isso? Que, afinal, significa isso, que parecia claro à primeira vista? Até que a mente também dá a impressão de se fechar. Como se fecharia a janela de um quarto escuro e vazio. A única janela que dá para a escuridão exterior. Depois, nada mais. Não. Infelizmente, não. Restam ainda os tênues lampejos de luz, e a agitação. Incessante

(Samuel Beckett)

Compartilhe:

Sarampo

Print

Hoje, no trem, eu fui encontrado por um sujeito com deficiência nas duas pernas, motivada, segundo ele, por um sarampo.

Ele começou pedindo a todos que vacinassem as suas crianças amanhã e prosseguiu o seu discurso, extremamente bem articulado, falando dos remédios e das dores, o de sempre, mas de forma tão coesa e tão convincente que a recepção foi geral. Muita gente lhe deu dinheiro!

Ao receber as moedas ele incentivava o passageiro: “Isso, minha tia! Muito obrigado!”

Encerrou seu discurso com uma reafirmação de sua preocupação com a vacina e saiu do vagão deixando todos satisfeitos!

Genial!

Compartilhe:

A Cigarra e a Formiga

Print

Nem a cigarra nem a formiga estavam trabalhando quando o escritor resolveu usar a pena retratá-las na fábula. Os insetos meramente desempenhavam suas atividades naturais e não esperavam receber ordenado algum no final do mês. Nem aplauso, nem dinheiro, nem reconhecimento. Nada.

Compartilhe:

O Humor

Print

Ontem eu presenciei um fato que me fez pensar na importância do humor frente aos fatos. Estava particularmente reflexivo, atormentado por intensos conflitos filosóficos enquanto lia um livro do Dalai Lama. Pensava na minha vida, nos rumos que ela tomou, em quais tem sido as minhas verdadeiras prioridades… Enfim, eu era um pouco Hamlet.

Enquanto isso, ao meu lado, estavam quatro seguranças patrimoniais, numa brincadeira de disputa e tiração de sarro. Cada hora um simulava ser o chefe do outro e lhe dava uma ordem sempre absurda e ofensiva. E eles prosseguiam nesse jogo, alheios a toda hierarquia, todo protocolo, toda burocracia da função. Brincavam como crianças, usando ternos de adultos. O jogo culminou com um lance em que um dos seguranças molhou o outro com um borrifador de água. O outro, por sua vez, tomou o borrifador, abriu a tampa e jogou a água em grande quantidade no primeiro. Se ofenderam mutuamente e, para não brigarem, terminaram o jogo.

Em algum momento as duas cenas se tocaram, a minha e a dos seguranças, do contrário este texto não teria sido escrito. As interferências mútuas, no entanto, poderiam não ter se limitado às nossas observações. Nesse jogo me cabia o papel de espectador, mas e se o jogo se dirigisse a mim? E se eu, o aristocrata da situação, me visse envolvido naquela disputa de alguma maneira? Se aquilo me dissesse respeito? Se aquele entretenimento sem função pudesse alterar profundamente o rumo da história em que sou protagonista? Não teríamos, neste caso, “uma cena dos coveiros” de Hamlet? Ou um dos episódios em que Trínculo, Estéfano e Caliban tramam contra Próspero?

Por entendermos que há algo de muito importante em jogo é que essas cenas são indispensáveis. A qualquer momento, apesar de toda pompa, de toda magnificência e de toda filosofia, três idiotas podem assassinar Próspero. Essa cena acrescenta humor e a sensação de perigo banal, diferente da conspiração tramada por Antônio e os nobres, que fica no plano das idéias.

Compartilhe:

Anciões

Print

Porque você acha que devemos nos sentar e esperar o fim?

Será que não entende que quanto mais tivermos vida, mais estaremos contribuindo para que o medo acabe?

Se morrermos agora, as gerações futuras entenderão que o nosso tempo é o tempo do fim, e passarão a evitar que ele chegue.
Com isso passarão a viver nos limiares do fim, acreditando que lhes resta apenas sentar e esperar que chegue. E assim, terminarão antes de nós. E as gerações que lhes sucederem passarão acreditar que o tempo do fim é aquele, daqueles que se foram.
Se essa estranha crença se mantiver no tempo, as gerações futuras terminarão cada vez antes, até que surgirão os natimortos e a vida terá cessado antes do seu início.

Por isso devemos viver mais.
Devemos levar o fim sempre adiante, para que as gerações futuras saibam, no fim, que o que vale é ter vivido.

Compartilhe: